Notívagos Burlescos apresenta espetáculo sobre a solidão contemporânea

Peça traz abordagem contemporânea que integra vídeo mapping, dança teatro e  música ao vivo

Da Redação

Livremente inspirada em Request Concert, de Franz Xaver Kroetz, Um Dia de Semana  Qualquer apresenta um mergulho na solidão urbana e no caos criativo. A montagem da  Associação Teatral Notívagos Burlescos, de Botucatu, que celebra 23 anos de trajetória  artística, teve sua estreia em Botucatu, em setembro no Teatro Municipal, depois  circulou pelo interior paulista, nas cidades de Agudos e Pirajú.

Atendendo ao desejo do grupo de se apresentar em sua cidade natal mais uma vez antes  de chegar na capital paulista, de 14 a 18 de janeiro no Teatro Alfredo Mesquita, Um dia  de semana qualquer, estará em cartaz na Casa da Juventude, dia 06 de janeiro, às 20h,  com apresentação única e gratuita.

A peça traz uma abordagem contemporânea que integra vídeo mapping, dança teatro e  música ao vivo, com dramaturgia de Sheyla Coelho e Robert Coelho e direção de João  Alves. Em cena estão Sheyla Coelho, Murilo Andrade e Dael Vasques. A proposta rompe as fronteiras do hiper realismo de Kroetz para criar uma experiência mais fluida entre o épico e o lírico,  abordando temas urgentes como solidão, depressão e ansiedade, acentuados no  período pós-pandêmico.

Na trama, uma mulher atravessa uma rotina saturada pelo barulho da cidade, das redes  e dos fluxos incessantes de mídia, afundando em uma solidão povoada e intensa. Em  paralelo, acompanhamos uma atriz perdida em seu caos criativo e ideológico, tentando  acessar meios de produção para realizar um trabalho transformador em meio às  exigências do presente. Essas duas figuras se encontram e buscam se reconstruir, apesar  de uma sociedade fragmentada que desgasta quem tenta sobreviver às suas dinâmicas. 

“O que nos motivou a revisitar Kroetz foi a necessidade de retomar o tema da solidão  feminina em uma realidade muito diferente da dele e da nossa, há 23 anos, quando  montamos sua obra. Em Request Concert, o suicídio aparece como um ato de resistência  de uma mulher isolada e oprimida. Ao voltar ao texto e a nós mesmos, entendemos que  hoje nosso caminho é o da rebeldia, a rebeldia de seguir criativos e sonhadores em um  cotidiano que nos afasta da nossa essência. Continuamos falando da solidão de quem  precisa, antes de ser, sobreviver, agora em um tempo em que virtual e real se misturam,  fantasias são vendidas como sonhos e o silêncio mordaz de Kroetz se camufla no barulho  das redes sociais”, afirmam os autores. 

A criação parte do impacto da precarização do trabalho, que se apoia no verniz do  discurso do empreendedorismo. O grupo toma como referência o conceito desenvolvido  pelo filósofo contemporâneo Byung-Chul Han, a Sociedade do Desempenho, uma marca  da atualidade que massifica o discurso da positividade tóxica e provoca superaquecimento neurológico. Manicures, dentistas, motoristas de aplicativo,  psicólogos e médicos têm a venda de sua força de trabalho mediada por gadgets e  plataformas, e, nesse contexto, muitas vezes a habilidade é nivelada pela audiência  cibernética. Os encontros e as trocas reais cedem lugar ao automatismo da audiência  medida por likes e seguidores virtuais. 

Para o diretor João Alves, a crítica ao automatismo das redes e das mídias digitais ganha  corpo justamente quando o teatro recoloca o humano no centro da experiência. “É  sempre importante lembrar que, por trás dos gadgets, streamings e redes sociais, existe  o humano, tanto no processo de programá-los como no processo de utilizá-los. Uma  crítica consistente ao automatismo destas mídias se faz quando tiramos o humano da  passividade e o colocamos como agente primário da própria vida, trazendo a  humanidade necessária para que o humano encontre o humano na cena teatral”,  afirma. 

Ele destaca ainda que a encenação busca equilibrar densidade e prazer estético. “Por  mais que tratemos de temas densos e complexos da contemporaneidade, eu busquei  não perder de vista a diversão que nasce da teatralidade. Cada elemento de cena foi  pensado para encher os olhos do público com imagens que tragam prazer estético e, ao  mesmo tempo, abram espaço para a reflexão”, conclui. 

Serviço

Um Dia de Semana Qualquer 

Dia 06 de janeiro de 2026 

Horário: 20h 

Casa da Juventude R. Benjamin Constant, 161 – Vila Jahu, Botucatu – Antiga Estação  Ferroviária 

Ingressos: Gratuitos, presencial – Retirada de ingresso a partir das 19h30, sujeito a  lotação

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