Menstruação e dieta podem favorecer falta de ferro em adolescentes

Deficiência de ferro e anemia não são sinônimos

Da Agência Einsten

Avaliar os hábitos alimentares e o padrão menstrual de adolescentes deve fazer parte da rotina clínica tanto quanto a solicitação de exames laboratoriais para medir o ferro sérico, que indica a quantidade do mineral circulante no sangue, e a ferritina, marcador dos estoques de ferro no organismo. Essa é a principal conclusão de um estudo realizado na Suécia e publicado em dezembro no periódico PLOS One.

A análise envolveu 394 estudantes com mais de 15 anos que já haviam passado pela menarca (primeira menstruação). As participantes responderam a um questionário detalhado sobre seus hábitos alimentares, sendo classificadas como onívoras (consomem alimentos de origem vegetal e animal), pescetarianas (comem peixes e frutos do mar, mas não outras carnes), vegetarianas (não ingerem nenhuma carne, mas comem itens como ovos, leite e derivados) ou veganas (não consomem qualquer produto de origem animal).

O padrão de sangramento menstrual também foi avaliado por meio de um questionário que considera tanto a duração e a intensidade do fluxo quanto o impacto do sangramento na rotina e na qualidade de vida das adolescentes. As jovens também tiveram peso e altura aferidos e realizaram exames de sangue para dosagem de hemoglobina — proteína presente nos glóbulos vermelhos e responsável pelo transporte de oxigênio — e ferritina.

Os resultados chamaram a atenção dos pesquisadores: 40% das participantes apresentaram níveis de ferritina abaixo do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), definido a partir de múltiplos parâmetros laboratoriais, como a capacidade de ligação do ferro e a saturação da transferrina.

Mais da metade relatou sangramento menstrual intenso, condição que se associou de forma consistente a níveis mais baixos de ferritina e hemoglobina. Os piores indicadores foram observados entre aquelas que combinavam fluxo menstrual elevado com dietas restritas em carne, grupo que apresentou risco até 13 vezes maior de deficiência de ferro em comparação às demais.

Segundo os autores, embora a relação entre perda sanguínea, ingestão alimentar e deficiência do mineral já fosse esperada, a magnitude do efeito combinado não havia sido descrita anteriormente, o que reforça a necessidade de maior atenção clínica. “A principal mensagem é clínica e prática: não basta avaliar a hemoglobina, é fundamental analisar o padrão menstrual e os hábitos alimentares das adolescentes, pois a deficiência de ferro pode estar presente mesmo sem anemia instalada”, afirma a ginecologista Liliane Diefenthaeler Herter, membro da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia na Infância e Adolescência da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Deficiência de ferro e anemia não são sinônimos. A primeira ocorre quando os estoques do mineral estão reduzidos, enquanto a anemia se instala quando essa carência já compromete a produção de hemoglobina e a capacidade do sangue de transportar oxigênio. Por isso, é possível haver deficiência de ferro mesmo na ausência de anemia, condição que pode gerar sintomas e impactos à saúde.

O quadro inicial costuma ser silencioso, o que dificulta o diagnóstico. “Quando ele aparece, envolve principalmente mucosas pálidas, cansaço, fadiga e desânimo, fatores que se misturam com o quadro normal da puberdade, complicando ainda mais na hora de determinarmos a causa”, explica a ginecologista e obstetra Renata Lamego, do Einstein Hospital Israelita.

Em longo prazo, a deficiência pode comprometer o desempenho escolar e até o desenvolvimento cognitivo. “E o tema é ainda mais relevante porque as adolescentes são particularmente vulneráveis à deficiência de ferro, já que vivem um período de grande demanda do mineral. O estirão do crescimento aumenta a necessidade de ferro, ao mesmo tempo em que se iniciam as perdas menstruais após a menarca”, acrescenta Herter.

Daí a importância de investigar a intensidade do sangramento menstrual, os hábitos alimentares e o estilo de vida durante as consultas. Sem orientação e acompanhamento, dietas com pouca ou nenhuma carne podem reduzir a ingestão de ferro. Além disso, hábitos ruins como pular refeições e consumir ultraprocessados em excesso podem agravar o problema. A prática esportiva intensa sem reposição adequada e a normalização do sangramento menstrual excessivo também contribuem para o desenvolvimento da deficiência.

O tratamento depende da gravidade do quadro e pode incluir suplementação de ferro por via oral ou intravenosa. “Também podemos prescrever uma pílula anticoncepcional, mesmo quando ainda não há vida sexual, pois elas podem trazer mais qualidade de vida, como menos fluxo e menos cólica, além de medicamentos que agem nesse sentido”, diz Lamego.

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