Projeto da Unesp Botucatu recebe financiamento internacional para pesquisa em contracepção masculina

Projeto busca explorar mecanismo biológico que já ocorre naturalmente na reprodução

Da Redação 

Um projeto de pesquisa desenvolvido no Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu (IBB) foi contemplado com financiamento internacional na chamada 2025 Opening Gates LMIC Seed Grant, promovida pela Society for the Study of Reproduction (SSR), com apoio da Bill & Melinda Gates Foundation, dos Estados Unidos.

Intitulado “Targeting sperm hyperactivation by SEMG1-derived bioactive peptides as an approach for male contraception” — que pode ser traduzido como “Alvo na hiperativação espermática por peptídeos bioativos derivados da SEMG1 como abordagem para contracepção masculina” —, o projeto propõe o desenvolvimento de uma nova estratégia de contracepção masculina não hormonal, baseada na modulação temporária da função dos espermatozoides.

A pesquisa é coordenada pelo professor Erick José Ramo da Silva, do Laboratório de Farmacologia da Reprodução e Farmacologia, que compõe o recém-inaugurado Laboratório Integrado de Farmacologia Celular e Molecular, vinculado ao Departamento de Biofísica e Farmacologia do IBB/Unesp. A proposta se fundamenta em estudos anteriores conduzidos pelo grupo de pesquisa, que demonstraram que a proteína seminal SEMG1 exerce um papel importante no controle da função espermática ao interagir com a proteína EPPIN, localizada na superfície dos espermatozoides.

Essa interação molecular atua inibindo a motilidade espermática, especialmente um tipo específico de movimento denominado hiperativação. Esse processo representa um padrão de motilidade vigoroso que permite ao espermatozoide atravessar as camadas externas do óvulo durante o processo de fertilização.

Com base nesse conhecimento, o projeto pretende testar uma série inédita de pequenos peptídeos bioativos derivados da SEMG1, avaliando seu potencial de modular a motilidade e a hiperativação espermática e, consequentemente, atuar como base para novas estratégias contraceptivas.

Segundo o coordenador da pesquisa, a proposta busca explorar um mecanismo biológico que já ocorre naturalmente durante a reprodução. “Nosso objetivo é desenvolver e testar pequenos peptídeos derivados da proteína SEMG1 capazes de modular a motilidade dos espermatozoides. A ideia é aproveitar um mecanismo natural de regulação da função espermática para investigar novas possibilidades de contracepção masculina não hormonal”, explica o professor Silva.

A investigação busca contribuir para enfrentar um desafio histórico da saúde reprodutiva. Atualmente, os métodos contraceptivos disponíveis para homens permanecem limitados basicamente ao preservativo e à vasectomia, o que restringe as possibilidades de compartilhamento das responsabilidades no planejamento familiar. Nesse contexto, a proposta explora uma abordagem inovadora baseada na inibição temporária da função dos espermatozoides, utilizando como base um mecanismo que já ocorre naturalmente durante o processo reprodutivo.

O projeto também representa um desdobramento do Auxílio Jovem Pesquisador Fase 2 da FAPESP, intitulado “Estudo translacional sobre a proteína espermática EPPIN como alvo farmacológico para contracepção masculina”, também coordenado pelo professor Erick J. R. Silva. A iniciativa fortalece a consolidação de uma linha de pesquisa estratégica no IBB/Unesp voltada à biologia da reprodução e ao desenvolvimento de tecnologias em saúde reprodutiva.

A equipe envolvida inclui a doutoranda Natália C. M. Santos, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Biomoleculares e Farmacológicas (Interunidades IBILCE/IBB-Unesp), e a pesquisadora de pós-doutorado Noemia A. P. Mariani; ambas com bolsa FAPESP. O projeto também conta com uma rede de colaboradores internacionais de Portugal, Reino Unido, França e Austrália, reforçando o caráter colaborativo e global da pesquisa.

O financiamento obtido junto à SSR e à Gates Foundation representa um importante reconhecimento internacional da qualidade científica das pesquisas desenvolvidas no Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu, além de ampliar as perspectivas de avanços no campo da contracepção masculina e da saúde reprodutiva.