Pesquisadores da Unesp Botucatu registram espécie rara de batata-doce nativa do cerrado
Espécie é única que resiste a longos períodos de seca e às queimadas
Da Redação
Pesquisadores da Unesp Botucatu registraram, pela primeira vez, a ocorrência da espécie Convolvulus hasslerianus — uma batata-doce nativa do Cerrado — na Floresta Estadual de Botucatu (FEB), unidade de conservação localizada a apenas 14 quilômetros do centro urbano da cidade. O achado amplia a distribuição conhecida da planta e reforça a importância dos estudos florísticos em fragmentos de Cerrado próximos a áreas urbanas.
Trabalho foi publicado no periódico científico internacional Phytotaxa (vol. 725, n. 2, 2025) sob o título “Expanding the known range of Convolvulus hasslerianus (Convolvulaceae) in the Brazilian Cerrado: new record, nomenclatural notes, and conservation assessment”. O artigo é assinado por Thiago Cobra e Monteiro, Gildean Macedo Nascimento, Renan Pavan Campos, Heloisa Maluf Ribeiro Melo, Beatriz Barcelos Costa Lira e Beatriz Cassiano Radovich, todos vinculados à Unesp Botucatu, além de Annelise Frazão (UFPE) e Ana Paula Fortuna-Perez (Unesp e Royal Botanic Gardens, Kew, Reino Unido). Todos são vinculados ao Departamento de biodiversidade e bioestatistica do IBB/Unesp.
Estudo confirma duas ocorrências da espécie em território paulista: uma em Botucatu, coletada pelos autores em 2023 na Floresta Estadual de Botucatu (FEB), e outra em Itapetininga, datada de 1946, que permaneceu por décadas sem identificação correta em um herbário do Rio de Janeiro. A redescoberta da planta, portanto, ocorre quase 80 anos após o último registro no Estado.
Segundo os autores, Convolvulus hasslerianus é a única espécie do gênero adaptada ao Cerrado, com estrutura subterrânea lenhosa que permite resistir a longos períodos de seca e às queimadas – condições típicas desse bioma. O estudo também traz, pela primeira vez, a descrição detalhada de seus frutos e sementes e propõe a designação formal de um lectótipo (espécime de referência para o nome científico da espécie).
Ameaçada e pouco estudada
A pesquisa avaliou ainda o estado de conservação da espécie, considerando seu histórico de registros esparsos e a degradação dos ambientes naturais onde ocorre. O levantamento indica que C. hasslerianus deve ser classificada como ameaçada de extinção (categoria “Em Perigo” segundo os critérios da IUCN), com área de ocupação reduzida e forte pressão antrópica sobre seus habitats.
A descoberta em Botucatu aumenta em quase 69 mil quilômetros quadrados a área conhecida de distribuição da espécie e reforça a necessidade de novas expedições científicas em fragmentos do Cerrado paulista — um dos biomas mais ameaçados do país, com menos de 7% de cobertura nativa em áreas protegidas
Cerrado urbano e conservação
Localizada a cerca de 14 quilômetros do centro de Botucatu, a Floresta Estadual (FEB) abriga um mosaico de formações vegetais que inclui campos limpos, campos sujos e Cerrado sensu stricto. Mesmo inserida em área protegida, a unidade sofre com invasões biológicas, descarte irregular de resíduos e ausência de uma política efetiva de manejo do fogo — fator essencial para a manutenção da biodiversidade local.
Os autores destacam que a presença de uma espécie até então não registrada no Cerrado de São Paulo, justamente dentro do perímetro urbano de uma cidade em expansão, ilustra a urgência de pesquisas e políticas públicas voltadas à conservação dos remanescentes de Cerrado no Estado
Para a professora Ana Paula Fortuna-Perez, orientadora do grupo e pesquisadora associada ao Jardim Botânico de Kew, “Um dos objetivos da nossa pesquisa é colocar em evidência o quão diversa é a nossa região, e o quão ameaçada está a flora de Botucatu, por isso a redescoberta de espécies raras e a revisão de coleções históricas revelam como é essencial investir em taxonomia e conservação, inclusive nos fragmentos próximos às cidades”.


