Treinamento com restrição de fluxo sanguíneo pode ser útil?
Estudo também reforça a importância de cuidados rigorosos na prescrição do método
Da Agência Einsten
O treinamento com restrição de fluxo sanguíneo vem ganhando espaço por permitir ganhos musculares sem a necessidade de cargas elevadas na atividade física. Conhecida em inglês como blood flow restriction (BFR), a técnica utiliza manguitos posicionados nos braços ou nas coxas, inflados a uma pressão controlada, para reduzir parcialmente o fluxo de sangue no membro durante o exercício.
“Com o manguito inflado, o retorno venoso fica mais difícil e, em alguns casos, há também uma leve redução da chegada de sangue arterial. Isso cria um ambiente de menor oxigenação e maior estresse metabólico, fazendo com que o músculo trabalhe mais mesmo com cargas leves ou até durante uma simples caminhada”, explica o profissional de educação física Brendo Faria Martins, preparador físico do Espaço Einstein Esporte e Reabilitação, do Einstein Hospital Israelita.
Apesar de parecer novidade, o método é antigo: surgiu no Japão, na década de 1960, onde ficou conhecido como KAATSU. Hoje é utilizado em diversos países, inclusive no Brasil, tanto no contexto esportivo quanto na reabilitação. “Mas é importante reforçar que não é simplesmente apertar a perna e treinar. A pressão precisa ser individualizada, o equipamento adequado e a aplicação, supervisionada”, ressalta Martins, que é especializado em Fisiologia do Exercício.
O treinamento com restrição de fluxo sanguíneo costuma ser indicado principalmente quando a pessoa não consegue treinar com cargas altas, seja por dor, limitação articular, pós-operatório ou fragilidade muscular. Pode ser uma ferramenta interessante para reabilitação, prevenção de perda muscular, para idosos com limitação funcional e, em alguns casos, como complemento no esporte. “Mas a triagem é fundamental, especialmente em pessoas com maior risco cardiovascular ou trombótico”, afirma.
Possíveis riscos
Pesquisas já indicaram que múltiplas sessões de caminhada com restrição de fluxo sanguíneo nas pernas podem melhorar o condicionamento cardiovascular, além de promover ganhos de força e hipertrofia muscular em idosos.
Mas a ciência também vem investigando possíveis riscos associados. Um estudo recém-publicado na revista científica Gait & Posture avaliou dez idosos, com média de 73 anos de idade. Eles caminharam em esteira por 10 minutos, em diferentes velocidades, com manguitos inflados nas duas coxas a 40% e 60% da pressão de oclusão arterial.
Os resultados mostraram que a qualidade da marcha e o equilíbrio pioraram de forma aguda quando a caminhada foi realizada com restrição de fluxo sanguíneo e quanto maior for a pressão, maior a alteração observada.
Entre os mecanismos que podem explicar a piora temporária do equilíbrio estão a fadiga muscular mais rápida, alterações no feedback sensorial e proprioceptivo causadas pela compressão do manguito, mudanças no padrão de marcha por desconforto e o aumento do custo metabólico da tarefa. “Tudo isso pode levar a passos mais curtos, maior oscilação lateral e menor estabilidade”, explica o preparador físico.
O estudo também reforça a importância de cuidados rigorosos na prescrição do método, como individualizar a pressão com base na oclusão arterial, começar com intensidades mais baixas, garantir que isso seja feito em um ambiente seguro, fazer triagem de risco e monitorar sinais como dor intensa, dormência, alteração de cor do membro ou tontura.
Apesar dos efeitos agudos negativos sobre o equilíbrio, os próprios autores levantam a hipótese de que, a longo prazo, o desafio imposto pelo treinamento com restrição de fluxo sanguíneo possa gerar adaptações positivas. “Sessões repetidas podem ajudar a melhorar força e função muscular, o que indiretamente pode reduzir o risco de quedas. Mas força não é sinônimo de equilíbrio. Para isso, é essencial combinar a técnica com treino específico de equilíbrio, coordenação e potência”, pondera Martins.
E lembre-se: nada de tentar reproduzir a técnica por conta própria. O método é considerado seguro quando feito dentro de um programa bem supervisionado, com ambiente seguro, progressão lenta e pressões mais baixas. “É uma ferramenta promissora, mas que exige dose, contexto e segurança”, afirma o especialista do Einstein.

