Conversação com Cavito- autor de “Esboços Naturais” finalista do Prêmio Jabuti 2025

Cavito é botucatuense há anos e seu livro de estreia foi finalista do Prêmio Jabuti

Por Vinícius Nunes Alves*

Caio Vitor Bonvenuto, conhecido como Cavito, é natural de São Paulo e radicado em Botucatu, já atuou em projetos musicais, teatrais e audiovisuais, além de ter lecionado Geografia na educação básica. O seu portifólio, nada monolítico, começou antes da sua morada em Ybytu Katu, e só para mencionar uma pitada dos seus trabalhos, Cavito encenou a peça teatral Visita-me (2010), participou da performance de live-cinema H3O (2012) com Paloma Oliveira e Mateus Knelsen e da performance multimídia Viragem (2018) com Kurru e Marília Coelho.

Entre seus trabalhos recentes, atuou como responsável técnico pela captação de som direto do curta-metragem premiado Tocar Território (2025), que propõe uma abordagem crítica e sensível da ecologia sonora dos ambientes urbano e rural da região da Cuesta e fez a provocação do espetáculo de dança Trama Terra (2024-2025), de Marília Coelho. Paralelamente, Cavito se enveredou no campo da escrita literária, vertente que se torna o eixo central desta matéria.

Para além das informações objetivas, permito-me uma avaliação pessoal: Cavito é um intelectual e artista de repertório amplo e sensibilidade diversa. Leitor assíduo, transita com familiaridade pelas culturas clássicas, mantém-se aberto às vanguardas e reflete, de forma consciente, a ebulição entre diferentes gerações. Nossa amizade começou em 2018, em um cenário pouco convencional: um iglu do espaço cultural da cidade, numa manhã de sábado, durante um debate em um grupo de Filosofia que ainda existe em Botucatu – o que já indicara uma disposição comum entre nós. Já perto do fim de um debate sobre o “mundo da imagem”, teoria associada ao teórico canadense da comunicação Marshall McLuhan, trocamos algumas impressões sobre o tema. Caio estava sentado ao meu lado, acompanhado de sua companheira Katiellemassoterapeuta, DJ e artista, que também se tornou uma amiga. Segundo ele, não seria difícil guardar o meu nome, uma vez que Vinícius também é o nome do seu filho. 

Preservo com razoável nitidez um momento específico dessa primeira conversa. Ao comentar que gosto de exemplos para compreender melhor questões filosóficas, ouvi de Caio uma resposta direta: era preciso cuidado, pois exemplos podem ser perigosos ao limitar a compreensão de realidades complexas e, muitas vezes, contraditórias. A franqueza do comentário já antecipava um traço marcante de sua personalidade.

Cavito não é alguém que orienta seu comportamento social pelo desejo de agradar, mesmo em um primeiro contato. Sua postura é educada, mas atravessada por uma consciência crítica aguda e por uma franqueza pouco comum. É do tipo de pessoa que discorda sempre que considera necessário e com argumentação –  justamente por isso faz crescer quem está ao redor, ainda que esse processo envolva desestabilizações emocionais e cognitivas. Como ele próprio já me disse, citando um provérbio hebraico: “O ferro com o ferro se aguça, assim o homem aguça o rosto do seu amigo”, as discordâncias estimulam o pensamento, convicções à parte.

Com o propósito de fertilizar a cultura, esta matéria não se propõe a ser uma entrevista nos moldes do jornalismo objetivo e árido. Aproxima-se mais da ideia de “conversação”, no sentido empregado pelo saudoso neurobiólogo e escritor chileno Humberto Maturana. “Conversar” vem da união de duas raízes latinas – cum (“com”) e versare (“dar voltas”) -, sugerindo a ideia de “dar voltas com o outro”. É nesse espírito que se constrói esta conversação com Cavito: um diálogo sintético mas aguçado sobre suas compreensões e experiências literárias, tendo como fio condutor Esboços Naturaisseu livro de estreia, lançado pela editora Laranja Original em 2024. A obra concorreu com mais de quatro mil títulos em todo o país e foi selecionada, em 2025, entre os cinco finalistas na categoria Contos.

Desde qual idade você nutre o hábito da leitura? Desconsiderando livros que, por ventura, nós lemos por obrigação (estudo ou trabalho), ler pode ser deleite, aprofundamento, fuga e ampliação da realidade. Você também entende leitura como essa amálgama que varia de acordo com cada fase de vida? Poderia discorrer a respeito.  

Sempre desconfiei do ato de recorrer a memória. Quando me deparo com perguntas como essa, me vem mais impressões que detalhes; a releitura da própria vida não é, em mim, uma prática. Mas sigo com as impressões, advindas do passado, que me acompanham de maneira descontínua e em constante transformação. Talvez a leitura tenha se firmado em mim entre os 12 e 14 anos. O primeiro livro que tive foi Moby Dick, uma versão recontada e ilustrada, presente de meus pais. Também li Verne e Wells, depois Simenon e o que eu encontrasse na biblioteca. Logo eu já comprava e trocava livros nos sebos. Tive versões populares, em papel jornal, de Elogio da Loucura de Erasmo, O Sobrinho de Rameau de Diderot e Humano, demasiado humano de Nietzsche. Elas me instigavam e, embora entendesse pouco, lia trechos. Segui sem orientação externa. Inclusive, tenho uma certa intolerância a ler por obrigação. Na escola, não lia o que era solicitado. Como estudei música, acabou que não tinha obrigações formais para literatura, que permaneceu um campo de liberdade e permeável às contingências. Isso rendeu uma espécie de jornada própria em um labirinto literário peculiar. Todos os caminhos pela literatura, em última instância, são labirintos – uns mais “mapeados” que outros. 

Você lê muito antes de começar a escrever? Pelo menos de livro publicado, Esboços Naturais é o seu primeiro. Poderia comentar, na sua concepção, como se desenrola a retroalimentação positiva entre leitura e escrita?  

O que escrevo não é consequência direta da leitura, mas da vida – que é algo mais complexo. Eu não lembro dos motes das escritas dos contos. Mas se analiso a questão, vejo relação direta com percepções sobre a vida na época. Foi um momento em que lia pouco. Acabei migrando, à revelia, do curso de música para o teatro e, sem aptidão para atuação, comecei a escrever peças – na época eu compunha trilhas sonoras. Aconteceu que, pouco depois, por algum gatilho que não sei (uma morte, quem sabe) passei a escrever narrativas curtas que recentemente foram publicadas sob o título Esboços Naturais. Escrevi a maioria desses textos há mais de 15 anos e, naquele momento, não pensava em ser escritor, nem em continuar escrevendo. Simplesmente aconteceu e engavetei.

Agora, depois de publicado, continuei a escrever e a ler, mas suspeito dessa retroalimentação entre leitura e escrita, da forma como colocou. Sugiro outro diagrama: leitura <-> vida <-> escrita. A vida é onde tudo acontece. Lendo, estou em diálogo com pessoas, lugares e situações. Esse diálogo é uma parte relevante da minha vida, que está em constante processo. A escrita se dá como uma espécie de síntese desse processo, que desponta em algum momento.

Além do seu livro de Contos publicado e finalista do Prêmio Jabuti, tive acesso a poemas extraoficiais de sua autoria, e sua próxima obra em finalização é Pequeno Continente, cujo pré-lançamento está agendado para o início de fevereiro no Quiprocó Bar. Diferentemente do primeiro livro, agora será uma coletânea de Poesias. O escritor moçambicano Mia Couto também transita por diferentes gêneros literários, mas já afirmou sua preferência pelo Conto, por acreditar que, “em um flash, pode estar tudo ali: a poesia, o romance condensado, a capacidade de surpreender e de construir o inesperado”. Você também tem um gênero de predileção? Independente do gênero, como você concebe uma escrita que desperta vitalidade?

Gosto, acima de tudo, de poesia e, logo depois, do conto, da novela e do ensaio. O romance, me interessa menos como gênero. Sobre o ponto de vista de Mia Couto, em relação a forma do conto, penso que raros autores criam obras que contém um mundo dentro. Mas eu não acredito que haja um gênero que contenha os outros. Acho que essa potencialidade diz respeito a obras e não a gêneros.

A escrita que me interessa é aquela que me leva para além dela. Que desvela um modo de existência de maneira performativa. Que constrói, pela atmosfera, uma tessitura gasosa a qual possamos respirar – sem ser conduzidos a um estado de explicação ou apreensão de ideias. 

Porém, tenho dúvidas de que essa escrita almeje a vitalidade. Muito depende do que entendemos por isso – seria preservação? expansão? continuidade? Digo, se por vitalidade entendo expansão da vida, a escrita que me interessa não seria vitalista. Embora eu deseje a continuidade da vida humana, não concordo com o antropocentrismo – nem com o biocentrismo. Um pensamento não centrado no humano não se afina muito com o vitalismo – suspeito que essas ideias fortes nos desequilibrem sem que percebamos. Portanto, não anseio que a literatura sirva nem para vitalismos, nem materialismos, nem espiritualismos; para mim, a literatura é um acontecimento ético (no sentido heideggeriano). Ela acontece em si, por si e com todo o resto. A relação é de tensionamento, quem sabe aquele que sustenta a realidade? 

 

O Sr. Rogério Moraes foi um amigo, leitor assíduo e agente escolar na sala de leitura da EE Américo Virgínio dos Santos de Botucatu-SP onde também atuava como contador de histórias para as crianças. Certa vez, Rogério ousou me definir o que seria um bom livro. Rogério comentou que “sem entrar no mérito literário, um bom livro é aquele que se mostra adequado à idade e à experiência intelectual do leitor, um livro complexo de referências e intertextualidade tende a encantar apenas leitores maduros e experientes”. Para a escrita dos contos no livro Esboços Naturais, você pensou na amplitude ou nos perfis do seu público leitor?  

Não pensei em um preceito de público leitor. Acontece que não confio que o pensamento racional ou estratégico seja o melhor nesses casos. A tendência dele é empobrecer as possibilidades e as relações que, querendo ou não, estão aí. O uso desse tipo de razão pode funcionar para o urbanismo, para a academia, ou em lógicas de mercado (e olha lá!), mas se tratando de arte, não deveríamos achar ter o controle das infinitas variáveis, pois a arte acontece justamente nesse perímetro de indefinição… ou ela se torna apenas um mercado.

O livro nunca é um acontecimento solitário. Ao ser publicada, a obra instaura um regime de ressonâncias e então se desvela onde ela, de fato, acontece e onde o som dela é pífio ou bate seco. A gente assiste o desdobrar desse ressoar mundo afora sem poder saber se as resistências ou porosidades que ela encontra são passíveis de serem qualificadas.

Sílvia Pereira – escritora, professora e pedagoga – em uma participação recente no Grupo “Filosofia Botucatu”, ao ler seu livro, fez uma associação com uma crítica literária de João Ubaldo Ribeiro que exalta o eu lírico feminino, de modo que este parece se misturar com a voz do autor. Eu também tive essas sensações ao ler as histórias. Esse efeito era uma intencionalidade sua? Você recebe a contento um retorno como esse sobre o seu livro?

Não busquei efeitos. Se entendemos o feminino, não pelo gênero socialmente construído, mas na esfera das descrições cosmológicas do feminino, recebo essas observações com satisfação e alegria. Me entendo como não-binário, e no geral não me faz sentido tentar distinguir atitudes masculinas ou femininas (sob o prisma social) em minhas ações, sentimentos e pensamentos. Toda tentativa nessa direção é frustrada, o que sobra é ambiguidade. Ainda assim, sob o olhar filosófico taoista que distingue yin/yang, admito que me afeiçoa muito mais o yin, o feminino. 

A interpretação de que existem polaridades ou energias do feminino e masculino, mesmo  assumindo que essas atuam mutuamente com variadas proporções em toda pessoa, parece ser alvo de críticas nas correntes do feminismo em geral. Na sociedade atual soa antiquado ainda afirmar, por exemplo, que “feminino” carrega muito da sabedoria, criatividade, intuição e mudança, enquanto “masculino” carrega muito da ação, estabilidade, objetividade e continuidade. Considerando as personagens do seu livro, quase todas femininas (Masi, Katia, Clara e Laila, três atrizes), você considera que houve uma boa mistura de traços de personalidades entre elas indo além de estereótipos de gênero? Pode-se dizer que você tem uma identificação maior pelo que venha a ser “feminino” ou com a “experiência da mulher” em si?

É uma questão complexa. Na resposta anterior, procurei distinguir o feminino social do metafísico. Mas haveríamos de distinguir mais coisas, muito mais. Ou deixar o conceito de feminino aberto, tensionado e latente. É uma decisão pessoal e coletiva, e a conversa contínua… 

Em relação aos contos de Esboços Naturais, não construí personagens naturais, a não ser esboços – há pouca psicologia, no geral. A escrita é mais performática, e os personagens são modos de existência, são linhas de transformação, são relações, são intenções etc. Isso se deve, em parte, a linguagem do conto, que remonta o início da escrita e não guarda relação lógica com o romance moderno. Neles, uma intuição fulcral toma forma e, para isso acontecer, é necessário se ater ao necessário. Há também uma tendência da minha escrita de revelar um ambiente rarefeito e abrangente, e não um situado e específico. Combinadas, essas questões esclarecem o porquê as personagens dos contos não são facilmente lidas na chave dos estereótipos de gênero, mas que elas procuram iluminar alusivamente a existência humana, onde as questões de gênero são muito relevantes.

Dito isso, pode-se dizer que tenho uma identificação maior com as linhas, densidades e vácuos do feminino, se pensado de modo amplo. Mas a “experiência de mulher”, essa é social e específica, apenas as mulheres podem ter – e cada uma a sua, em seu local e época.

Em seu livro, os contos “A Foz” e “A Viagem” têm o potencial de provocar uma sensação de angústia nos leitores e apresentam desfechos inusitados, que abrem espaço para reflexões sobre o sentido de viver na fronteira entre a realidade e o onírico. Você poderia comentar o processo de escrita desses dois contos em particular? Explicitar sentidos e intenções não esvazia a força literária de contos como esses, em que as lacunas, as ambiguidades e os finais em aberto são justamente os elementos que potencializam a experiência estética e reflexiva?

Sim, nossa vida acontece nesse entre: a mediação sempre insuficiente que nos deixa frente à realidade como se estivéssemos perante um sonho: deslumbrados, ou assustados, frente ao inexplicável. Os contos que você citou são centrais. Eles foram os últimos a serem escritos e sinto que desvelam um modus existencial que é tanto uma tentativa de se pôr frente à instabilidade da nossa apreensão do real quanto um atrevimento em relação a ele. Eles são para mim, em alguma medida, a superação do impasse: ou seja, a continuidade de um fluxo que não se interrompe pelas impossibilidades. Eles se escreveram em mim durante anos, os primeiros da minha vida adulta, onde enfrentei o desafio de uma resposta ao niilismo, que não fosse o experimentalismo. Se a teoria é limitada e pode nos distanciar do chão da realidade, como apreendê-la de forma não teórica? A “intuição” rende real orientação ou apenas reproduz vícios? Essas questões me habitavam e, de alguma forma, antes que eu percebesse, os contos estavam dialogando com elas. 

O caminho desse diálogo foi de uma ampla abertura – que muitas vezes é interpretada como lacuna, ambiguidade etc -: acontece que a realidade não é uma lógica fechada e, se o reconhecemos, há necessidade de uma abertura àquilo que é – mesmo que não apreensível. Entendo que uma experiência estética significativa se dá nessa tensão entre o escrito e o não escrito, uma tensão produtiva que conduz a impressões que vão além do simplesmente descrito.

A leitura e a reflexão sobre o conto Visita-me evocam, em certa medida, passagens e temas presentes no famoso romance A insustentável leveza do ser, do escritor tcheco Milan Kundera. Ao longo da obra, destacam-se contraposições como o desejo físico e o compartilhamento do fardo da existência, o compromisso com o outro e a necessidade de suportá-lo, a satisfação erótica e a aceitabilidade social. Essas tensões também parecem atravessar a relação entre as personagens Clara e Laila em Visita-me. Em alguma medida, você também identifica essas aproximações entre o enredo de seu conto e parte da obra de Kundera? 

É possível tentar uma aproximação da obra de Kundera com a vida pessoal de Clara, uma das personagens do conto. Mas penso que Visita-me é outra coisa, pois se trata, em um quadro profundo, da relação de duas mulheres, e se olharmos bem, talvez cheguemos a duvidar de que são duas – ou de que diferenciá-las tenha relevância. Sob esse aspecto, guarda uma proximidade maior com Persona de Bergman. Falo isso mais como leitor do que como autor. Na realidade, Visita-me foi uma peça de teatro que escrevi e encenei em São Paulo, ficou em cartaz duas temporadas, e que anos depois foi transformada em conto. Na época, eu não conhecia Kundera, mas estava mergulhado em uma ideia de teatro onde a ação não é representativa, mas performática. Nem alegórica, nem fantástica, sinto que ela tenta, por imagens, sugerir sentimentos, relações e impasses.

A leitura do conto Katia é um dos que mais me remetem ao olhar de Fernando Parré no prefácio do seu livro: “… apoteose cotidiana de ousar desvendar a si e ao mundo …”. A personagem Katia passou por inúmeras certezas, incertezas, encantos e desencantos, e foi amadurecendo a sua consciência. No arco da história, para você, ela construiu uma autenticidade de buscar mais a essência das coisas? “Não vemos as coisas como elas são, vemos as coisas como somos”, essa frase do psiquiatra e filósofo suíço Carl Jung seria ousada o suficiente em representar uma verdade absoluta subjetiva para todo indivíduo que vive?  

É possível entender Kátia como uma ascensão à desilusão – não que ela chegue lá, nem que represente um amadurecimento. Mas não tenho certeza de que a busca de Kátia possa ser entendida como uma por ela mesma, que seria a autenticidade. Talvez ela realmente estivesse ocupada com a “essência das coisas”, mas ela buscava isso? Ou seria mais um desvelar do cinismo? De qualquer modo, não há acesso às coisas como elas são em si, como disse Kant, sob o ponto de vista epistemológico. 

Em paralelo, parece que “vemos as coisas como somos”, concordando com Jung; e somos todo esse enigma, esse mistério, assim como essa arrogância, essa pretensão. Kátia, de certa forma, obteve vislumbres disso e enfrentou as consequências à sua maneira e à maneira da sociedade em que ela vivia. 

O drama teatral Severinos – Morte e suicídio, presente em seu livro, prendeu-me a atenção do início ao fim. A leitura fluiu sem interrupções e, a cada cena, edifiquei mentalmente um imaginário de palco com as três atrizes contracenando. Trata-se de uma peça que poderia ser primorosa e densa de assistir, se conduzida por uma direção e por intérpretes com rigor artístico, competência técnica e “estômago” para enfrentar sua carga temática. Você teria interesse ou desejo de dirigir esse drama no teatro?                    

Em debate no Café Filosófico CPFL, o diretor de teatro Gerald Thomas afirmou ter sérias dúvidas sobre a existência de um “amor dramatúrgico”. Ele concebe o teatro como uma farsa bem estruturada e como uma rede de intrigas de modo que o amor predominante no teatro é o amor narcísico, seja do autor para si mesmo (personagens como ramificações dele mesmo) e dos atores para si mesmos. Em que medida você comunga ou não com essas visões de Gerald Thomas sobre teatro?

Em “Severinos”, poderíamos dizer que  as personagens amam as suas narrativas sobre o sentido de viver ou morrer?

A leitura de uma peça dramática é uma experiência curiosa. Abre um contexto que será construído a partir das referências teatrais de cada leitor. Severinos é um drama, mas não convencional. Em realidade, ele é um drama mínimo e máximo, ao mesmo tempo. Se ele tem alguma nuance, tem o dobro de caricaturas. Sua leitura, me parece, acaba sendo mais um impacto que uma fruição. De modo que a força dele é também sua fraqueza e a decisão de mantê-lo dentro do livro foi difícil… por fim aceitei. Vejo uma tensão pouco resolvida entre ele e as outras narrativas. Espero que isso se justifique. Mas compreendo que depende muito de como se atravessa o livro. Como peça, já tive vontade de encená-la, hoje não mais. Dentro do livro, esse drama funciona como ponto de ebulição, mas enquanto peça teatral autônoma, sem as ressonâncias dos contos ao redor, acabaria sendo um acento onde não desejo acentuar.

A afirmação de Gerald Thomas, da inexistência de um “amor dramatúrgico”, tem como contexto uma sociedade que há muito tem sido narcísica. Mas que o teatro seja simples “farsa”, ou esteja centrado na ideia de mímesis, me parece uma percepção limitada se pensarmos nos desenvolvimentos recentes da linguagem cênica ou no próprio teatro grego. A arte talvez seja o lugar onde, idealmente, implodimos esse binarismo dentro/fora. Talvez eu entenda arte de uma maneira diferente de Gerald; não fosse isso, ele estaria afirmando a ausência de arte no teatro e parece que ele não pensa exatamente isso. 

O amor, tal como eu o entendo, é justamente essa indeterminação do eu e da alteridade, e quanto mais ele se impõe, mais as fronteiras se diluem. As atrizes de Severinos, portanto, são figuras que amam pouco, pois estão apaixonadas pelas suas ideias e sentimentos. O apego a ideais e expectativas é justamente o que as distanciam do amor. 

*O colunista Vinícius Nunes Alves é licenciado e bacharel em Biologia pela Unesp-IBB, mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais pela UFU-Inbio e especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp-Labjor. Foi professor substituto em Filosofia da Ciência na Unesp-IBB. É doutorando no Programa Educação para a Ciência na Unesp-FC, atua como professor de Ciências na Prefeitura de Botucatu, como membro do blog Natureza Crítica – Blogs de Ciência da Unicamp e como jornalista independente, colaborando em veículos como O Eco, #Colabora, ComCiência, Ciência na Rua e Observatório da Imprensa.

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