Comer carne vermelha aumenta o risco de diabetes tipo 2
Sobrepeso, a obesidade e o acúmulo de gordura abdominal acarretam desajustes metabólicos
Da Agência Einsten
Na contramão de modismos como a “dieta carnívora”, que incentiva o consumo elevado de proteína animal, diversas pesquisas reforçam os impactos negativos do excesso de carne vermelha na saúde. Já há evidências consistentes de associação do alimento com doenças cardiovasculares e, mais recentemente, a ciência tem apontado um elo com o aumento do risco de diabetes tipo 2.
Publicado em fevereiro no periódico British Journal of Nutrition, uma pesquisa da Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, analisou dados sobre o consumo alimentar de 34.737 adultos, vindos do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), levantamento que monitora o estado nutricional de parte da população estadunidense.
O artigo revela que entre os extrapolavam nas porções de carne vermelha e carne processada — que inclui bacon, salsicha e presunto, por exemplo — havia maior probabilidade de diabetes. Por outro lado, a inclusão de fontes de proteína vegetal, caso dos feijões, esteve associada à redução do risco dessa doença metabólica, caracterizada pela disfunção da insulina e por níveis elevados de glicose no sangue.
Outro trabalho, esse divulgado em 2023 na revista científica The American Journal of Clinical Nutrition, também encontrou essa associação. Mas não se trata de uma relação de causa e efeito. “É um estudo observacional, ele não comprova que a ingestão de carne vermelha causa diabetes tipo 2”, comenta o endocrinologista Carlos Minanni, do Einstein Hospital Israelita.
Os pesquisadores mencionam que cerca de 50% da associação entre a carne e o diabetes é mediada pelo excesso de peso. “Então, o problema pode não ser a carne vermelha em si, mas o fato de seu consumo excessivo contribuir para o balanço calórico positivo e a obesidade”, observa Minanni.
Possíveis mecanismos
Sabe-se que o sobrepeso, a obesidade e o acúmulo de gordura abdominal estão por trás de desajustes metabólicos capazes de desencadear a resistência à insulina, quadro em que o hormônio não exerce suas funções de forma eficaz.
Outra pista é o alto teor de gordura saturada encontrado na carne vermelha. “O excesso dessa gordura interfere com a ação da insulina, dificultando a entrada de glicose nas células”, explica o endocrinologista. Também há indícios de que grandes quantidades de gordura saturada favoreçam a ativação de receptores imunológicos que desencadeiam uma inflamação crônica no corpo. “Esse processo pode prejudicar tanto a sensibilidade insulínica quanto as células do pâncreas”, detalha.
Já as carnes processadas, além de apresentarem os ácidos graxos saturados, contêm substâncias como os nitritos e demais aditivos. “O excesso desses ingredientes tem impactos negativos na microbiota intestinal”, adverte a nutricionista Maristela Strufaldi, da Sociedade Brasileira de Diabetes.
Existem estudos mostrando que a disbiose, isto é, o desequilíbrio entre as bactérias que habitam o cólon, propicia a permeabilidade do intestino, desencadeando inflamações que contribuem para a resistência à insulina. São exemplos salame, salsicha, linguiça, bacon, hambúrguer industrializado, bem como os frios, ou seja, mortadela, presunto e até o “insuspeito” peito de peru.
Os protetores
Se extrapolar no consumo de carnes pode aumentar o risco de diabetes, os estudos revelam que determinados alimentos têm efeito protetor. Um dos grupos mais aclamados é o das leguminosas, que inclui feijões, grão-de-bico, lentilha, ervilha, favas, entre outros.
Todos oferecem proteína de qualidade e são ricos em fibras. “Essa combinação promove a harmonia da microbiota intestinal e favorece o metabolismo da glicose”, destaca Strufaldi. A recomendação é alternar os tipos no dia a dia para não cair na monotonia. “Uma sugestão é utilizar esses ingredientes em saladas, sopas e outras receitas diferentes dos cozidos tradicionais”, indica. Além das leguminosas, rechear o cardápio com frutas, hortaliças, sementes, pescados e cereais integrais traz impactos positivos ao equilíbrio glicêmico.
Para além da alimentação, outras estratégias também exercem efeito protetor. A prática regular de atividade física é uma das principais, incluindo tantos exercícios aeróbicos — como corrida, caminhada e natação — quanto o treino de força, caso da musculação. “O músculo é o principal consumidor de glicose do corpo, e o aumento e manutenção da massa magra melhoram a sensibilidade à insulina”, diz Carlos Minanni. Cuidar do sono e manter o peso corporal adequado também são fatores essenciais para afastar o diabetes.

