A questão climática também precisa entrar na urna
Tudo isso exige planejamento, investimento e decisões políticas
Por Patrícia Shimabuku*
Fora os problemas que já acompanham, historicamente, a trajetória do Brasil- corrupção, desigualdades, violência, insegurança e tantos outros- temos agora uma questão que se torna cada vez mais urgente: a questão ambiental e as mudanças climáticas.
Elas não respeitam fronteiras, classe social, condição econômica, origem étnica ou raça. É verdade que seus impactos não atingem todos da mesma maneira — quem está em situação de maior vulnerabilidade costuma sofrer primeiro e de forma mais intensa. Mas ninguém está completamente imune às consequências, diretas ou indiretas, de um clima que vem mudando.
Dinheiro e patrimônio podem oferecer conforto, segurança e melhores condições de proteção, mas não criam uma blindagem contra eventos climáticos extremos. Uma chuva torrencial, uma enchente, uma onda de calor ou ventos intensos podem atingir diferentes territórios e classes sociais, ainda que de maneiras muito distintas.
E há algo que às vezes esquecemos: o problema não está apenas no clima. Está também na forma como ocupamos e construímos nossas cidades.
Quando substituímos solo e vegetação por asfalto e concreto, alteramos o caminho natural da água. A chuva infiltra menos no solo e escoa mais rapidamente. É quando aparecem alagamentos, enxurradas e enchentes — problemas que não dependem apenas de quanto choveu, mas também de como o território foi planejado e de quanto ele está preparado para receber essa água.
Por isso, não basta perguntar quanto choveu. É preciso perguntar: como nossas cidades estão preparadas para receber essa água? Arborização, áreas verdes, preservação de nascentes e córregos, pavimentos permeáveis, drenagem urbana, ocupação do solo e infraestrutura também fazem parte da política climática.
E a infraestrutura que sustenta a vida e a economia também está nessa conta. Nossas estradas e rodovias, por exemplo, são fundamentais para o transporte de pessoas e para o deslocamento de grande parte das commodities que movimentam a economia brasileira. Quando eventos climáticos extremos danificam estradas, pontes, ferrovias ou outras estruturas de transporte, os efeitos não ficam restritos ao local atingido: podem interromper rotas, encarecer o transporte, comprometer o abastecimento e afetar toda uma cadeia econômica.
Tudo isso exige planejamento, investimento e decisões políticas. Talvez por isso estejamos olhando demais para os presidenciáveis e de menos para quem, efetivamente, vai votar os orçamentos, as políticas públicas e as emendas. Deputados federais e senadores também terão papel decisivo nessa agenda.
Então, talvez valha fazer algumas perguntas antes de escolher um candidato: o que ele sabe sobre a questão ambiental? O que já votou, caso tenha mandato? Qual foi seu posicionamento diante das questões climáticas? E, principalmente, quais são suas propostas para preparar cidades e populações para eventos extremos que já não parecem tão excepcionais?
A questão climática não é coisa de “ecochato” ou “biodesagradável” — termos que eu mesma já utilizei, em alguns posicionamentos, quando atuava como ativista.
Ela envolve dinheiro e investimento público. Envolve saúde, agricultura, agronegócio, infraestrutura, abastecimento de água, energia, transporte, economia, moradia e a própria vida nas cidades. E, na saúde, os impactos também exigem preparo. Ondas de calor e de frio podem aumentar a vulnerabilidade de pessoas com doenças crônicas e cardiovasculares e exigir maior atenção ao acompanhamento de condições como hipertensão arterial. A prevenção também passa por medidas aparentemente simples, mas que precisam ser reforçadas diante de mudanças no padrão de exposição: hidratação, proteção contra temperaturas extremas e contra a radiação solar, prevenção do câncer de pele e atenção aos grupos mais vulneráveis.
E não podemos esquecer da saúde mental: perdas materiais, deslocamentos, medo, isolamento e a repetição de eventos extremos também deixam marcas que nem sempre aparecem imediatamente, mas que precisam fazer parte do cuidado em saúde.
E não podemos esquecer dos chamados “refugiados climáticos” — ou, de forma mais precisa, das pessoas que precisam se deslocar ou migrar em razão de eventos climáticos extremos. É um conceito que já vem sendo discutido há alguns anos por organismos internacionais e humanitários, mas que ainda parece distante para muita gente.
Mas o que faremos quando pessoas precisarem deixar suas casas, cidades ou regiões por causa desses eventos? Não basta pensar apenas em prevenção. É preciso pensar também em resposta, acolhimento, moradia, alimentação, saúde, transporte, infraestrutura e recursos públicos.
Porque, quando falamos de clima, não estamos falando de uma pauta distante ou de um assunto reservado a ambientalistas. Estamos falando da rua que alaga, da árvore que cai, da casa que perde o telhado, da lavoura que se perde, da estrada que fica intransitável, da carga que não chega, da falta de energia, da água que não chega e de famílias que podem, em algum momento, precisar deixar o lugar onde vivem.
Por isso, talvez seja hora de olhar menos para o discurso e mais para o histórico de quem pede o nosso voto. A questão climática também precisa entrar na urna.
* Patrícia Shimabuku é farmacêutica industrial, especialista em Saúde Pública, Farmácia Clínica e Hospitalar, Nutracêuticos e Suplementação na Prática Clínica, Cosmetologia Avançada e atualmente cursando Especialização em Farmácia Hospitalar e Acompanhamento Oncológico.

