Microbiota intestinal pode indicar risco de fragilidade em mulheres idosas
Estudos indicam ainda que há relação entre a microbiota e a saúde mental
Da Agência Einsten
Mulheres idosas com maior diversidade bacteriana no intestino tendem a apresentar menor grau de fragilidade, segundo estudo publicado em julho no periódico Nature Communications. A condição geriátrica é marcada por perda de peso e massa muscular, declínio físico, diminuição da força e exaustão, aumentando o risco de quedas, fraturas, hospitalização e mortalidade.
Participaram da pesquisa 2.081 mulheres, com idades entre 75 e 80 anos, que responderam a questionários e passaram por análises de medidas antropométricas, testes de função física e coleta de fezes para análise do material genético dos micro-organismos presentes no intestino.
“A microbiota tem sido cada vez mais reconhecida por manter em equilíbrio as funções do organismo, participando da regulação do metabolismo, do sistema imunológico, da inflamação e de processos relacionados à função muscular e ao sistema neuroendócrino”, comenta a nutricionista Bruna Fernanda Camargo Parra, do Einstein Hospital Israelita.
Embora o trabalho traga indícios promissores, trata-se de uma análise observacional, o que não permite afirmar que a composição da microbiota causa ou previne a fragilidade. Os próprios cientistas mencionam a necessidade de mais pesquisas. O achado, porém, reforça o interesse científico pela relação entre o intestino e o envelhecimento saudável, sobretudo em uma fase da vida em que fatores como alimentação, uso de medicamentos e outras condições afetam a saúde intestinal.
Observa-se na população idosa quadros de inflamação sistêmica de baixo grau, apelidados de inflammaging, que ocorrem quando o indivíduo permanece por anos exposto a um estado inflamatório leve, porém constante.
Diversos trabalhos mostram que a disbiose, isto é, o desequilíbrio na população dos micro-organismos, pode estar relacionada à inflamação. Alterações na microbiota também podem afetar a integridade da barreira intestinal, aumentando a exposição do organismo a componentes bacterianos capazes de estimular respostas inflamatórias.
“No artigo, menciona-se o papel de bactérias, caso da Faecalibacterium prausnitzii, na produção de substâncias que regulam a inflamação”, destaca a nutricionista Samara Cristina Mascarenhas, também do Einstein. Ela refere-se aos ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs) — butirato, acetato e propionato —, liberados após a fermentação das fibras, especialmente as prebióticas.
Estratégias em prol da microbiota
Além da possível relação com a fragilidade, a comunidade que habita o intestino, formada por trilhões de micro-organismos, está envolvida no funcionamento do sistema imunológico e em processos ligados à saúde metabólica e cardiovascular.
Estudos indicam ainda que há uma relação entre a microbiota e a saúde mental. É o chamado eixo intestino-cérebro, uma via de comunicação entre o sistema gastrointestinal e o sistema nervoso que envolve mecanismos como a produção de metabólitos e a sinalização por neurotransmissores.
Para manter a diversidade e o equilíbrio da microbiota, vale adotar um cardápio variado e recheado de frutas, hortaliças, grãos integrais e feijões. Esses alimentos oferecem fibras com efeito prebiótico, que servem de substrato a micro-organismos presentes no intestino e podem favorecer o crescimento de bactérias benéficas. “Dentro desse grupo, temos os fruto-oligossacarídeos (FOS) e a inulina, por exemplo”, afirma Mascarenhas. Estão presentes na cebola, na batata yacon, no aspargo, na alcachofra, na chicória, entre outros.
Os probióticos também merecem atenção. Alimentos fermentados, como alguns iogurtes com culturas vivas, kefir e kombucha, podem conter bactérias benéficas à saúde. Um cuidado é observar os rótulos, verificando informações sobre o tipo de micro-organismo ou cepa. “Deve-se atentar à data de validade e à conservação desses alimentos”, orienta Mascarenhas.
Por fim, cabe salientar que a composição da microbiota não depende apenas da alimentação. O estilo de vida todo, incluindo a prática de atividade física, o sono adequado e o gerenciamento do estresse, também influenciam a saúde do ecossistema intestinal.

