Conversando sobre Genética: um pouco do que essa área estuda, o quanto ela pode ser interessante, menos complicada e mais aprendida
A maior parte da população tem contato com conhecimentos básicos da Genética na escola ou, com conhecimentos recentes simplificados
por Vinícius Nunes Alves*
Você tem alguns minutos para ler sobre Genética? Você talvez, mas saiba que as suas células precisam ler a sua Genética em todas as fases de sua vida. Entender um pouco dos genes – como são suas partes, como se formam, como podem influenciar nossas características, como podem ser alterados e transmitidos, etc. – também é uma forma de autoconhecimento. Levando em conta a época da dedução da estrutura do DNA (1953) e todas as demais descobertas posteriores acerca dos ácidos nucléicos (DNA e RNA), percebemos que a Genética é uma área relativamente nova. Ao mesmo tempo, é uma das áreas de maior crescimento dentro das Ciências Biológicas, sendo que seus conhecimentos são dobrados a cada 2 anos. A maior parte da população tem contato com conhecimentos básicos da Genética na escola ou, com conhecimentos recentes simplificados em forma de notícias, reportagens e outros meios de divulgação científica.
Esta postagem é mais uma com o formato de entrevista “ping-pong” e vai introduzir questões como interesse pela Genética, ensino e aprendizagem em Genética e um curso de férias em Genética que tem todo começo do ano em Botucatu. Quem se destaca em postagens assim é a fonte (pessoa entrevistada) que aceita o convite para contar um pouco do conhecimento e da experiência que ela acumula sobre determinado tema. No caso, a fonte é a professora e pesquisadora Adriane Pinto Wasko, do Departamento de Ciências Químicas e Biológicas, pertencente ao Instituto de Biociências de Botucatu (IBB) da UNESP. Adriane é bióloga, com mestrado e doutorado em Genética e Evolução. Na pesquisa, Adriane tem experiência em Genética Animal, com ênfase em projetos voltados à conservação de espécies ameaçadas de extinção, como a exuberante e ameaçada arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus).

Na extensão, Adriane desenvolve atividades de popularização da Ciência, como cursos de férias para adolescentes de Botucatu e região, seleção de novos talentos juniores da rede pública, além de coordenar a Agência de Divulgação Científica (AgDC) do IBB da UNESP. Essas não são todas as formações e atuações acadêmicas da Adriane, mas não vem ao caso esgotar aqui, então vamos começar a conversar sobre Genética?
Profa. Adriane, você se graduou em Biologia, e uma das áreas de todas as suas pós-graduações é a Genética. Dentre tantas áreas que a Biologia tem, o que motivou você a escolher e se aprofundar na Genética?
Eu me encantei pela área de Genética ainda no Ensino Médio, ao ler o livro “Brincando de Deus”, de June Goodfield, que mostrava o impacto que a Engenharia Genética, por meio da manipulação das moléculas hereditárias (DNA e RNA), teria em nossa sociedade. Assim, decidi que seria Bióloga e que iria me especializar na área de Genética Animal. Mais tarde, já no primeiro ano do curso de graduação, ao fazer um estágio em um laboratório na Universidade Federal de São Carlos, me encantei novamente pela Genética. Mais especificamente, passei a entender a importância e a aplicação de análises genéticas voltadas a espécies animais em risco de extinção. A partir desse momento, tenho dedicado grande parte de minha vida acadêmica à conservação da diversidade genética de populações de animais ameaçados de extinção.
Simplificadamente falando, a Genética é a ciência que estuda a estrutura e a função dos genes, bem como a hereditariedade, ou seja, a transmissão de características através das gerações. Pela sua experiência como professora, é difícil explicar essas questões que envolvem os genes, já que a compreensão de sua estrutura, organização e função exige certa abstração/imaginação? Somente usar imagens, vídeos e microscópios fazem as explicações ficarem didáticas?
Você tem toda razão. Explicar os princípios da hereditariedade é comumente bastante difícil pois nem sempre em estudos genéticos conseguimos visualizar estruturas e processos associados a moléculas como DNA e RNA. O uso de imagens e vídeos facilita essa aprendizagem, mas muitas vezes não são suficientes para que o aluno tenha uma boa compreensão. Assim, utilizar modelos, jogos e experimentos práticos em sala de aula surtem mais efeito no aprendizado, pois os estudantes se envolvem efetivamente nas atividades e os conteúdos passam a ser tratados de uma forma menos abstrata. Além disso, o uso de analogias e a correlação dos conteúdos abordados a ações cotidianas dos alunos também permitem que estes compreendam mais facilmente temas de Genética.
Segundo um trabalho de conclusão de curso (TCC) de uma aluna que você orientou, os adolescentes do Ensino Médio do Estado de São Paulo, em geral, consideram os conteúdos de Genética muito interessantes, mas também muito complexos. A partir da sua experiência de pesquisa e de extensão, poderia comentar sobre alguns conceitos e processos da Genética que os adolescentes mais têm dificuldade de entender?
Genes e alelos. Esse é um tópico de Genética que foi levantando por esta estudante em seu TCC e que, durante atividades que fazemos na UNESP com estudantes do Ensino Médio, também surge como abstrato e de difícil compreensão. Dizer a um aluno que “alelos são formas distintas de um mesmo gene” representa quase que falar chinês a alguém que não compreende essa língua. Assim, temos que buscar alternativas didáticas para transmitir o significado de alelos como, por exemplo, correlacionar gene a um tipo de chocolate e alelos a sabores diferentes desse mesmo chocolate. Ou seja, todos continuam sendo o mesmo tipo de chocolate mas que apresentam pequenas diferenças em sua constituição. Outro tópico de difícil compreensão refere-se à duplicação da molécula de DNA. Mediado por uma série de enzimas, esse processo pode ser mais facilmente compreendido por meio de dinâmicas em sala de aula, como fazer com que os próprios alunos atuem como os nucleotídeos (as unidades que compõem a molécula de DNA) e como as enzimas e suas respectivas funções. Ao encenar esse processo, os estudantes conseguem “visualizar” como este acontece nas células.
Na UNESP de Botucatu você coordena desde 2009 o “Experimentando Genética”, que é um dos cursos de férias do Projeto de Extensão “Difundindo e Popularizando a Ciência na UNESP: Interação entre Pós-Graduação e Ensino Básico”. Esse curso tem o objetivo de difundir e popularizar tópicos e avanços da Genética para estudantes do ensino médio público e para professores do ensino fundamental II e médio público de Botucatu e região. Sabemos que as vagas são limitadas e que assim os interessados são selecionados de acordo com as respostas dadas a determinadas perguntas – em geral, o que você valoriza nas respostas dos questionários para fazer a seleção dos estudantes?
A criatividade, especialmente. Respostas como “porque tenho interesse na temática desse curso” ou “porque quero aprender sobre esse assunto” são óbvias já que o estudante está se inscrevendo por essa razão mesmo. Assim, selecionamos aqueles que demonstram criatividade e capacidade de organização de suas ideias. Quanto mais criativa e diferente for a resposta, mais chance do estudante ser selecionado.
Para você, as edições dos cursos de férias foram ficando cada vez melhores? Poderia mencionar algumas frases que estudantes e professores saíram dizendo sobre edições do curso?
Claro! Sou suspeita para falar sobre isso porque os cursos de férias são um de meus encantamentos profissionais e pessoais mas, como o passar do tempo, os alunos de mestrado e doutorado que atuam como monitores nessas atividades foram criando novas formas de transmitir conteúdos, materiais didáticos e as aulas foram, consequentemente, se tornando mais atrativas e divertidas. A cada final de curso, os estudantes nos pedem para ficar mais uma semana na UNESP para aprenderem e se divertirem ao mesmo tempo. É gratificante ouvir, ao final das atividades, depoimentos como “…E hoje o domingo já é de muitas saudades. Nunca valeu tanto passar duas semanas acordando às 06:30 da manhã e voltando às 10 da noite para casa. Nunca valeu tanto dedicar todo meu tempo por uma disciplina. Foi sensacional esses dias com vocês. É como minha querida amiga xxxxxxxx disse: minha bagagem voltou muito mais pesada, de tanto aprendizado, alegrias e amor que eu trouxe comigo. Muito obrigada a todos!”. É isso que nos impulsiona a dar continuidade a essas atividades extensionistas da universidade e a ampliar o número dos cursos em temáticas variadas.
Vinícius Nunes Alves é Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas – IBB/UNESP. Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais – UFU. Especializando em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP . Professor Escolar da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
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