Está tudo invertido: é o rabo balançando a cachorra
A todo momento com gestos, ações e em um comportamento já aceito pela sociedade, é imposta a submissão ao poder do macho
por Vanessa Ito*
Não quero chocá-la ou surpreendê-la mas hoje precisamos começar do começo, ou seja, a partir daqui: o feminismo é a ideia de que as mulheres também são gente! Daqui se desdobram inúmeras e históricas lutas para que as mulheres tenham os mesmo direitos do homens. Quem acredita que Elas tem o mesmo que Eles ou é responsável pelas agressões às mulheres ou é cúmplice deles. Precisamos mudar e analisar como chegamos a este ponto.
Diariamente o machismo e o patriarcado impõem à força normas sociais de submissão das mulheres. São vários os tipos de violência, podendo ser ela física, sexual, psicológica/moral (piadas, imposições, ameaças), patrimonial (roubo de bens pelo homem) e institucional (descaso dos serviços públicos no atendimento às mulheres).

A todo momento com gestos, ações e em um comportamento já aceito pela sociedade, é imposta a submissão ao poder do macho, submissão a uma organização social que controla seu corpo, sua sexualidade, seus desejos e suas vontades, a julga e a pune na cultura do boca a boca, ‘na boca do povo’, que confina as mulheres para serem livres apenas no local privado.
A repercussão na sociedade da violência contra as mulheres como algo “corretivo” de posturas e posicionamentos diferentes do ultrapassado comportamento colonial segue trivial pois impõe que a culpa é da abusada, da vítima. Banalizam e montam espetaculáculo dessa violência nas redes sociais e nos meios de comunicação de massa: nos filmes, novelas, reality shows e propagandas colocam o apelo de que a mulher é ‘pegável, desejável’, um ‘objeto’ exposto em um lugar de pouca reflexão, reforçando estereótipos ‘para o homem’, naturalizando ainda mais a violência sexista, passando longe de representar um avanço nas consciências sobre esse tema.
Quantas vezes nos deparamos com comerciais de cerveja ou carro, onde o corpo da mulher é usada para aguçar o desejo pelo produto? O que exatamente está sendo vendido? Esse aspecto da mercantilização do corpo vem acompanhado de uma padronização do que é “ser mulher”. Ao mesmo tempo em que os meios de comunicação incentivam determinados comportamentos e vestimentas como sendo os ‘corretos’, algo a ser escondido e tapado pois assim é o ‘correto’ segundo os ‘bons costumes’, mas há exposição de corpos em horário nobre associando ao desejo e ao seu consumo, e no mundo real nos deparamos com casos de violência sexual e discriminação da mulher sob o argumento da roupa que ela usa. Somos filhas, esposas, mães e avós em casa; no trabalho, somos professoras, enfermeiras, faxineiras, secretárias; na política falamos de feminismo, mas quem discute política, segundo o eleitor “séria”, é o homem. O reflexo em nossa sociedade em colocarem na boca do povo as mulheres como objeto que pode ser assim uma ‘mercadoria’, consumida e violentado diariamente! Que mensagem estamos passando para nossas crianças?
Isso tem que mudar, precisamos ser responsáveis com essa mensagem e ela tem que ser feita não somente pelos homens que comandam a economia e o mercado da comunicação. As concessões de rádio e televisão são públicas, de todos, atinge a todos, e devem ter responsabilidade social, refletir a diversidade cultural e social que devem representar em seu canal de informacão,, e assegurar o direito à comunicação pela construção da sociedade, que
hoje atende apenas aos donos do poder. Por isso defendemos o controle social da mídia, uma mídia de todos para todos, para que a sociedade organizada possa debater e avaliar o conteúdo veiculado nos meios de comunicação e assegurar a aplicação dessa responsabilidade social.
A resistência e luta das mulheres, se faz com a quebra do silêncio, com mobilização e solidariedade ativa às vítimas, principalmente retomando o poder que precisa ser ocupado pelas mulheres, com respeito e dignidade, desmascarando a conivência da sociedade e reivindicando ações de enfrentamento para o equilíbrio entre todos e todas. Precisamos agir para garantir à mulher tudo o que já é dado ao homem. Seguiremos juntas, todas.
*Vanessa Ito é presidenta do PSOL de Botucatu

