Sem controle, obesidade na infância tende a se manter na adolescência

Raramente a criança vai crescer e emagrecer depois

Da Agência Einsten

A ideia de que uma criança acima do peso considerado adequado vai crescer e emagrecer depois pode estar mais distante da realidade do que muitas famílias imaginam. Um estudo brasileiro revela que se o excesso de peso surge ainda nos primeiros anos da infância, tende a se manter durante a adolescência e vida adulta, reforçando a importância da prevenção e do acompanhamento contínuo do crescimento infantil.

Publicado em abril no British Journal of Nutrition, o trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com o Boston College (EUA), a Universidad Autónoma de Chile e a Universidade Federal do ABC. Entre 2013 e 2020, a equipe acompanhou mais de 41 mil estudantes de 5 a 18 anos, de 47 escolas públicas brasileiras, para entender como peso e altura evoluem ao longo da infância e da adolescência. Em uma subamostra de 11,5 mil participantes, cerca de 64% mantiveram peso adequado, enquanto 21% evoluíram para sobrepeso e 15% para obesidade.

O trabalho evidencia que raramente a criança vai crescer e emagrecer depois. “O crescimento em altura não corrigiu automaticamente o aumento da adiposidade já estabelecida”, afirma Eliana Vellozo, do setor de Medicina do Adolescente do departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina da Unifesp e autora que conduziu a pesquisa, em entrevista à Agência Einstein.

Os pesquisadores observaram que o índice de massa corporal (IMC), que relaciona peso e altura, aumentou progressivamente tanto em meninos quanto em meninas ao longo dos anos, com sinais já evidentes nas primeiras fases da infância. A maior prevalência de obesidade apareceu justamente entre crianças de 5 a 10 anos.

Os resultados reforçam a existência de uma “janela crítica” nos primeiros anos da vida escolar, quando hábitos alimentares, sono, atividade física e comportamento sedentário começam a moldar o risco futuro de obesidade.

“Crianças que já apresentavam sobrepeso nos primeiros acompanhamentos tiveram maior probabilidade de manter ou agravar essa condição ao longo dos anos”, explica Vellozo.

Muitas vezes, o problema começa ainda antes do nascimento. “A promoção de saúde e prevenção da obesidade infantil começa desde o período da gestação”, defende a médica Carolina Ramos, especialista em endocrinologia pediátrica do Einstein Hospital Israelita. Segundo ela, fatores como alimentação, ganho de peso na gravidez, ausência de aleitamento materno e tipo de introdução alimentar podem influenciar diretamente o risco futuro de obesidade da criança.

A pesquisa também reflete mudanças importantes no estilo de vida infantil nas últimas décadas. “Hoje, grande parte das crianças passa mais tempo em ambientes fechados, com menos espaço para brincadeiras ao ar livre e maior uso de celulares, computadores e videogames, o que contribui para um cotidiano mais sedentário”, comenta Eliana Vellozo. Somam-se a isso o consumo frequente de ultraprocessados e bebidas açucaradas, além da redução do tempo de sono.

Mais peso, menos crescimento

Outro achado inesperado preocupou os pesquisadores: apesar do aumento gradual da altura ao longo dos anos, parte dos adolescentes não atingiu o potencial esperado de crescimento. Os meninos começaram a apresentar estatura abaixo da referência internacional por volta dos 9 anos. Entre as meninas, isso aconteceu a partir dos 13.

À primeira vista, pode parecer contraditório: como uma população pode ganhar peso e, ao mesmo tempo, não crescer o suficiente? A resposta está em dietas muitas vezes ricas em calorias, mas pobres em nutrientes importantes para um crescimento adequado, como proteínas de qualidade, ferro, zinco e vitaminas. “Outro ponto é que a obesidade e o consumo aumentado de alimentos ultraprocessados estão associados a uma maior probabilidade de puberdade precoce, o que também prejudica o crescimento”, alerta Ramos.

Além disso, o excesso de gordura corporal pode acelerar a maturação óssea. “Isso frequentemente se traduz em uma fase de crescimento aparentemente normal ou até acelerada no início, mas com fechamento precoce das cartilagens de crescimento, o que reduz o crescimento final”, detalha a endocrinologista do Einstein.

Problema que vai além da balança

Não enxergar o sobrepeso e a obesidade infantil como um problema de saúde retarda o cuidado e aumenta a probabilidade de desenvolver outras doenças a médio e longo prazo. O excesso de peso na infância está associado a maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão, alterações hepáticas e problemas osteomusculares na vida adulta.

“Estudos mostram que o fato de ter tido obesidade na infância/adolescência, mesmo que melhore o peso com relação à altura depois, já tem um maior risco dessas doenças no futuro”, alerta Carolina Ramos. Por isso, o acompanhamento contínuo faz diferença. “Esse tipo de monitoramento permite reconhecer precocemente padrões de risco antes que o excesso de peso se consolide e aumente o risco de complicações futuras”, pontua a pesquisadora da Unifesp.

A escola pode ser uma peça-chave nisso, o que inclui desde incentivo à atividade física até educação alimentar, fortalecimento do bem-estar emocional e monitoramento contínuo do crescimento e do estado nutricional. “A escola acompanha crianças e adolescentes justamente em uma fase decisiva da formação de hábitos. Ela pode atuar como um ambiente de promoção da saúde de forma ampla”, aponta Vellozo.

O envolvimento da família também é fundamental, já que os hábitos infantis são fortemente influenciados pelo ambiente doméstico. “A integração entre escola e família favorece a consolidação de comportamentos mais saudáveis ao longo do desenvolvimento”, afirma a autora. Incluir as crianças na preparação dos alimentos e incentivar refeições em família são hábitos que ajudam na formação de hábitos saudáveis.

O acompanhamento pediátrico ao longo da infância e adolescência é essencial para identificar precocemente desequilíbrios entre peso e altura. A obesidade infantil raramente desaparece sozinha, e quanto mais cedo começam os cuidados, maiores são as chances de evitar que ela persista até a idade adulta.