Cabelo descolorido e alisado sofre mais com o calor

Calor acrescenta mais uma fonte de estresse à fibra capilar

Da Agência Einsten

Descolorir, alisar e utilizar secador ou chapinha nos cabelos faz parte da rotina de beleza de muitas pessoas. Mas a combinação de procedimentos químicos com altas temperaturas pode provocar alterações que vão muito além do ressecamento ou da perda de brilho dos fios. Um estudo brasileiro realizado por pesquisadores do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) mostrou que esses tratamentos modificam tanto a parte externa quanto a estrutura interna do fio e podem deixá-lo ainda mais vulnerável à ação do calor. Os resultados foram publicados na revista científica Biopolymers.

No trabalho, os pesquisadores compararam cabelos virgens, descoloridos, submetidos ao alisamento ácido (popularmente conhecido como progressiva) e fios que passaram pelos dois procedimentos (alisamento e descoloração). Depois, as amostras foram aquecidas a diferentes temperaturas e analisadas por microscopia eletrônica, espalhamento de raios X e espectroscopia de infravermelho, técnicas capazes de identificar alterações tanto na superfície quanto na estrutura interna do fio.

Para entender como esses procedimentos podem afetar os fios, primeiro é preciso conhecer a estrutura do cabelo. De fora para dentro, ele é formado por cutícula, córtex e medula. “A cutícula funciona como uma proteção do fio e possui uma camada de lipídios que ajuda a repelir a água. Depois vem o córtex, que é a maior parte do fio, formado basicamente por queratina, proteína que dá força e elasticidade ao cabelo”, explica o dermatologista Beni Grinblat, do Einstein Hospital Israelita. É também no córtex que está a melanina, responsável pela cor dos fios. Já a medula ocupa a região mais central do fio e tem pouca influência sobre características como força e elasticidade.

Procedimentos químicos precisam interferir nessa estrutura para produzir o resultado desejado. Na descoloração, por exemplo, os produtos precisam alcançar o córtex para oxidar a melanina. “Portanto, há um dano à estrutura do fio”, diz Grinblat. Uma vez quimicamente tratado, o cabelo também fica mais sensível a novas agressões, entre elas, o calor.

É justamente a combinação desses processos que chama a atenção no estudo. Os cabelos que passaram pela descoloração e pelo alisamento apresentaram alterações mais importantes na organização interna do fio do que aqueles submetidos aos tratamentos isoladamente. A descoloração, por exemplo, não interfere apenas na cor: para retirar o pigmento, o processo degrada os grânulos de melanina presentes no córtex. Com a perda desse material, podem se formar pequenas cavidades no interior do fio, aumentando sua porosidade e criando pontos de maior fragilidade.

A degradação dos grânulos de melanina e a formação de cavidades no interior do córtex já eram descritas na literatura. O diferencial do estudo brasileiro foi acompanhar essas alterações durante o aquecimento, por meio do espalhamento de raios X, permitindo observar como a organização interna da fibra se modifica em diferentes temperaturas, em vez de avaliá-la apenas ao final do processo.

“Sabe-se que essas cavidades tornam o fio mais poroso e são apontadas como pontos de fragilidade na estrutura. Conseguimos caracterizar essas alterações do ponto de vista estrutural e identificar em que condições elas se acentuam”, explica Cibele Lima, doutora em ciências dos cabelos pela USP, pesquisadora na área de cosméticos e fibra capilar há mais de 15 anos e autora do estudo.

Segundo ela, isso mostra que a descoloração não provoca apenas a perda do pigmento, mas pode atingir outras estruturas da fibra, aumentando a porosidade do fio. Quando esse cabelo já fragilizado passa por outro procedimento químico e ainda é exposto ao calor, esses efeitos podem se somar, por isso, tendem a ser piores.

A pesquisadora explica que a resistência do cabelo, por sua vez, depende principalmente do córtex. É nessa região que ficam os filamentos de queratina alinhados que auxiliam o fio a suportar a tração. Quando essa organização é prejudicada, o cabelo passa a romper com esforços menores. O problema é que nem sempre essas alterações são perceptíveis. “Um fio pode estar brilhante e liso e já ter perdido estrutura interna”, afirma Lima.

O impacto do calor

O calor acrescenta mais uma fonte de estresse à fibra capilar. Um dos achados do estudo foi que, por volta de 70 °C, nos cabelos submetidos ao alisamento ácido (progressiva), ocorre uma mudança na organização dos lipídios presentes entre as células da cutícula e do córtex. “Esses lipídios funcionam como um cimento que mantém as camadas do cabelo coesas. Com o aquecimento, eles perdem essa organização e passam de um estado organizado para um estado desordenado”, explica a pesquisadora.

Isso não significa, porém, que 70 °C seja uma fronteira entre uma temperatura segura e outra perigosa. “Não é que 69 graus esteja bom e 70 graus já esteja ruim. O que precisamos considerar é que o calor será prejudicial e, quanto maior for a temperatura, pior”, pondera Grinblat. A recomendação, segundo o dermatologista, é utilizar a menor temperatura capaz de produzir o efeito desejado.

Outro resultado reforça a maior vulnerabilidade do cabelo quimicamente tratado. Nas condições controladas do laboratório, o início da degradação térmica ocorreu por volta de 200 °C no cabelo virgem e de 175 °C no alisado – uma diferença de 25 °C, indicando menor estabilidade térmica. “Isso significa que uma temperatura tolerável em um fio natural pode já estar acima do limite em um fio quimicamente tratado”, explica Lima. Muitas ferramentas de calor disponíveis no mercado trabalham entre 200 °C e 230 °C.

Esses valores, no entanto, não devem ser interpretados como limites exatos de segurança para chapinhas e secadores. Os testes foram realizados em laboratório, sob condições controladas, e a temperatura indicada no aparelho não corresponde necessariamente àquela atingida pelo fio. Além disso, o dano depende do tempo de contato, do número de passadas e da repetição do uso. “O dano é cumulativo: repetições diárias somam efeito mesmo abaixo desse limiar”, diz a pesquisadora.

Produtos cosméticos

Na prática, portanto, além de evitar temperaturas muito elevadas nos fios de cabelo, vale reduzir a frequência e a sobreposição de procedimentos químicos. No caso do uso de secador, por exemplo, o dermatologista do Einstein recomenda mantê-lo mais distante dos fios e em movimento constante, evitando concentrar o calor na mesma região por muito tempo. Também é importante aumentar o intervalo entre descolorações, alisamentos e outros procedimentos e manter os cuidados cosméticos depois da química.

E há uma limitação importante para qualquer tentativa de “recuperar” um cabelo muito danificado. Produtos cosméticos podem melhorar o aspecto, o toque e a aparência dos fios, mas não são capazes de reconstruir completamente uma estrutura que já foi destruída. “O que você consegue fazer, cosmeticamente, é melhorar a aparência desse fio. Mas o dano é irreversível. É preciso esperar nascer um fio novo”, conclui Grinblat.