Professores Antonio Luiz Caldas Jr e Winston Yoshida tornam-se professores eméritos da Unesp Botucatu

Homenagem reconhece as contribuições dos docentes para a história da Faculdade

Da Redação

A Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB/Unesp) concedeu, na manhã de sexta-feira (23), o título de Professor Emérito ao professor titular Winston Bonetti Yoshida e ao professor doutor Antonio Luiz Caldas Junior. A sessão solene da Congregação foi realizada no Salão Nobre da instituição e reuniu autoridades, como o deputado federal João Cury, dirigentes universitários, representantes do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (HCFMB) e da Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp), docentes, servidores técnico-administrativos, estudantes, familiares e convidados.

A homenagem reconhece as contribuições dos dois professores para a história da Faculdade, em trajetórias marcadas pela formação de profissionais, pela produção científica, pela assistência à saúde, pela gestão institucional e pelo compromisso com a sociedade.

A mesa diretora foi composta pelo diretor da FMB/Unesp, professor titular Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza; pelo diretor da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA/Unesp), professor titular Caio Antonio Carbonari; pelo vice-presidente do HCFMB, doutor João Henrique Castro; e pelo diretor-presidente da Famesp, professor titular Pasqual Barretti, que também foi reitor da Unesp entre janeiro de 2021 e janeiro de 2025. Os professores eméritos Hamilton da Rosa Pereira e Silvio Alencar Marques integraram a comissão de honra e conduziram os homenageados à mesa diretora.

O diretor da FMB manifestou sua satisfação em conceder a homenagem e ressaltou o significado das cerimônias acadêmicas para a preservação da memória institucional. “Quero manifestar minha imensa alegria de estar aqui, nesse momento especial, conferindo o título de Professores Eméritos a Winston Bonetti Yoshida e Antonio Luiz Caldas Junior”, afirmou.

Em sua reflexão, Fortaleza recorreu ao historiador das religiões Mircea Eliade para abordar a dimensão simbólica dessas solenidades. Para o diretor, mesmo em uma universidade laica, o reconhecimento daqueles que dedicaram suas vidas ao conhecimento e à formação de pessoas confere à cerimônia um significado que ultrapassa o protocolo acadêmico.

O pronunciamento também abordou o papel da universidade como espaço de produção de conhecimento, formação humana e debate democrático. Fortaleza ressaltou a importância da autonomia universitária, da liberdade de pensamento e da defesa da democracia, valores fundamentais para a existência e o desenvolvimento das instituições públicas de ensino superior.

Ao refletir sobre os desafios e as responsabilidades da universidade, o diretor sintetizou sua mensagem na frase: “Temos muito a comemorar, muito a temer, muito a lutar.”

Fortaleza também destacou as contribuições específicas dos dois homenageados. Sobre Winston Yoshida, ressaltou a trajetória dedicada à Cirurgia Vascular, à formação de profissionais e pesquisadores e ao desenvolvimento científico da especialidade na Faculdade.

Em relação a Antonio Luiz Caldas Junior, enfatizou sua atuação na Saúde Pública, sua defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e seu compromisso com a divulgação científica. Ao recordar o trabalho desenvolvido pelo professor durante a pandemia de Covid-19, especialmente por meio das redes sociais, para orientar a população e combater informações falsas, afirmou: “Estou certo de que salvou muitas vidas através da internet.”

O diretor destacou que o título de Professor Emérito representa não apenas o reconhecimento de uma carreira, mas também a valorização de um legado que permanece presente na instituição, na formação de novas gerações e na sociedade.

Winston Yoshida: uma trajetória ligada à construção da Faculdade e da Cirurgia Vascular

A trajetória acadêmica de Winston Bonetti Yoshida foi apresentada pelo professor associado Marcone Lima Sobreira, seu ex-orientando de doutorado e atual chefe de serviço da área que o homenageado ajudou a desenvolver e consolidar. Marcone lembrou que Winston chegou à então Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu (FCMBB) em 1967, quando a instituição ainda estava em seus primeiros anos. Desde então, acompanhou e participou de seu crescimento, contribuindo para a consolidação de uma escola de Cirurgia Vascular reconhecida nacionalmente.

Sob a influência do professor emérito Francisco Humberto de Abreu Maffei, ao lado de docentes como Sidnei Lastoria e Hamilton Almeida Rollo, Winston integrou um grupo que contribuiu para a formação de cirurgiões, professores e pesquisadores e para o desenvolvimento da especialidade na Faculdade.

A produção acadêmica do homenageado inclui 188 artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais, 72 capítulos de livros, orientação de 15 dissertações de mestrado e 15 teses de doutorado, além da supervisão de 20 projetos de iniciação científica. Sua atuação também resultou no desenvolvimento de instrumentos cirúrgicos patenteados e no estabelecimento de parcerias nacionais e internacionais.

Homenageado relembra os primeiros anos da Faculdade

Em seu pronunciamento, Winston Yoshida resgatou momentos marcantes de sua trajetória na FMB/Unesp, desde o ingresso no curso de Medicina, em 1967, até a consolidação de sua carreira como professor titular e pesquisador. Ao recordar sua chegada a Botucatu, descreveu uma instituição ainda em fase inicial de estruturação, com instalações e serviços hospitalares limitados, mas com grande potencial de crescimento. Naquele ano, segundo relatou, havia apenas 15 leitos na enfermaria de Clínica Médica, e parte das aulas práticas dos estudantes pioneiros era realizada na Misericórdia Botucatuense.

A falta de investimentos públicos mobilizou os estudantes, que organizaram a chamada “Operação Andarilho”, movimento em que seguiram a pé até São Paulo para reivindicar recursos do governo estadual. A mobilização foi bem-sucedida e, ao final de 1967, a Faculdade recebeu dezenas de caminhões carregados de equipamentos, episódio que representou um estímulo para professores e alunos.

Winston também recordou a efervescência cultural e política da vida universitária naquele período, com iniciativas como cineclube, teatro amador, eventos estudantis e apresentações de grandes nomes da música popular brasileira em Botucatu. Entre os artistas que passaram pela cidade por meio do Circuito Universitário, citou Elis Regina, Toquinho e Vinícius, João Bosco, Gonzaguinha e Gonzagão, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Paulinho da Viola.

Formado em 1972, Winston iniciou a residência em Cirurgia Geral na Faculdade no ano seguinte. Por influência do professor emérito Francisco Humberto de Abreu Maffei, seguiu para a Cirurgia Vascular, especialidade na qual construiu uma carreira dedicada à assistência, ao ensino e à pesquisa.

O homenageado destacou a importância de Maffei em sua formação, especialmente nos conhecimentos sobre delineamento experimental e redação científica. Recordou também sua contratação como auxiliar de ensino, em 1978, a conclusão do mestrado, em 1979, do doutorado, em 1984, e da livre-docência, em 1999, após estágio de pós-doutorado nos Estados Unidos. Em 2011, conquistou, por concurso público, o título de professor titular da FMB/Unesp.

Na área assistencial, ressaltou sua participação na introdução de procedimentos endovasculares para o tratamento de doenças arteriais periféricas e de aneurismas da aorta. Também mencionou parcerias internacionais que permitiram a realização de estágios de residentes no exterior e o desenvolvimento de pesquisas e tecnologias cirúrgicas.

Winston dedicou parte de sua fala à gestão do Hospital das Clínicas, onde atuou como diretor da Divisão Médica e Hospitalar entre 2000 e 2006. Nesse período, implantou iniciativas de organização dos processos de trabalho, redução de desperdícios, informatização de serviços, melhoria da qualidade e humanização do atendimento.

Na produção científica, destacou sua participação na Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular e sua atuação como editor-chefe do Jornal Vascular Brasileiro desde 2004. Também lembrou o trabalho coletivo que resultou no livro Doenças Vasculares Periféricas, atualmente em sua sexta edição.

Caldas: Saúde Pública, SUS e participação social

A trajetória de Antonio Luiz Caldas Junior foi apresentada pelo professor associado Ildeberto Muniz de Almeida, que destacou a atuação do homenageado no ensino, na pesquisa, na gestão universitária e na formulação de políticas públicas de saúde. Nascido em Santos, em 3 de novembro de 1951, Caldas ingressou na Escola Paulista de Medicina, atualmente Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em 1970, e participou ativamente do movimento estudantil. Em 1976, concluiu a residência em Medicina Preventiva e Social na então Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, sob a preceptoria da professora emérita Cecília Magaldi. Posteriormente, realizou mestrado e doutorado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Ao longo de 39 anos de atuação como docente do Departamento de Saúde Pública da FMB, trabalhou na formação de estudantes de Medicina, Enfermagem e Nutrição e participou da consolidação do programa de pós-graduação da área, orientando dissertações e teses e contribuindo para a produção científica. Sua carreira também incluiu responsabilidades administrativas, como a chefia do Departamento de Saúde Pública, a Superintendência Administrativa da Famesp e a participação em instâncias colegiadas da Faculdade e da Unesp.

Na gestão pública, foi diretor do Escritório Regional de Saúde (ERSA 24) e secretário municipal de Saúde de Botucatu, período em que participou da estruturação do Fundo Municipal de Saúde e do Conselho Municipal de Saúde. Como vice-prefeito, voltou a ocupar a Secretaria Municipal de Saúde e participou da implantação de programas e projetos em parceria com a FMB, o HCFMB e a Famesp.

Ildeberto destacou ainda a participação de Caldas no movimento da Reforma Sanitária, que contribuiu para a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), e sua atuação política em defesa da democracia, dos direitos sociais e de uma sociedade mais justa e solidária.

Durante a pandemia de Covid-19, Caldas integrou voluntariamente o Comitê Unesp Covid-19 e se dedicou à divulgação de informações e à produção de conhecimento sobre a crise sanitária. Em 2023, publicou, em coautoria com João Carlos Vieira, o livro Memórias da Pandemia: A história da Covid-19 em Botucatu (e no mundo). Também organizou, ao lado do professor André Balbi e de cerca de cem autores, a obra A Pandemia de Cada Um – A covid-19 pelos olhos do HCFMB.

Mesmo após a aposentadoria da FMB, em 2017, continuou atuando em atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão, além de assumir funções na administração municipal e no Hospital das Clínicas, onde exerce a função de ouvidor.

Ao falar sobre o amigo e colega, Ildeberto expressou sua admiração pela lucidez intelectual e pela atuação política de Caldas Junior. Definiu-o como “uma das cabeças mais lúcidas da nossa Faculdade e da política municipal”.

O professor também ressaltou a importância da atuação de Caldas na defesa da democracia, da ciência e de políticas públicas baseadas em evidências, especialmente em um contexto marcado pelo negacionismo e por ataques ao conhecimento científico.

Em sua avaliação, Caldas é uma voz necessária nos debates sobre os rumos da sociedade, da universidade e do sistema de saúde. Ao concluir, celebrou a trajetória do homenageado e reafirmou a importância das instituições e dos valores que ambos defendem: “Vida longa professor Caldas! Viva a FMB. Viva o SUS. Viva a democracia!”

Em seu discurso de agradecimento, Antonio Luiz Caldas Junior definiu a concessão do título como um dos momentos mais significativos de sua vida acadêmica. “Não pode haver maior júbilo do que merecer o reconhecimento de seus pares”, afirmou. Em seguida, expressou a emoção de receber a distinção: “Hoje é um dia ímpar na minha vida! Esta cerimônia não é um momento. É para mim a coroação de uma longa trajetória!”

O professor relembrou a história de sua família, descendente de portugueses que chegaram ao Brasil há mais de 140 anos. Seus avós, imigrantes e trabalhadores manuais, não tiveram acesso à educação formal, mas transmitiram às gerações seguintes a convicção de que o estudo era um dos maiores legados que os pais poderiam deixar aos filhos. Nesse contexto, recordou o ensinamento de seu avô Manuel: “o maior bem que um pai deixa aos filhos é a escola, a educação”.

Ao falar da família que construiu, destacou a esposa, os sete filhos, os oito netos e o bisneto, reconhecendo o apoio familiar como parte essencial de sua trajetória. Recordou que, em 1977, levou o primeiro filho à escola e que, décadas depois, continuava acompanhando a filha mais nova, Luiza, de 10 anos, na rotina escolar. “Esta é a família que eu tento honrar todos os dias. O esteio central de minha trajetória!”, declarou.

Caldas também recuperou passagens da juventude em Santos, sua participação no movimento estudantil durante a ditadura militar e o interesse crescente pelas questões sociais e políticas que o levaram à Saúde Pública. A chegada a Botucatu, em 1976, representou um marco em sua vida. Ao recordar o encontro com a Faculdade e a residência na área, resumiu a experiência com entusiasmo: “Vim, vi, conversei e me apaixonei. Amor à primeira vista”.

Contratado como auxiliar de ensino em 1978, construiu uma carreira que reuniu docência, orientação, pesquisa, administração universitária e participação na formulação e gestão de políticas públicas. Mesmo após a aposentadoria, há cerca de dez anos, manteve sua atuação junto à Faculdade e ao Hospital das Clínicas.

Em seu pronunciamento, destacou também a militância política iniciada ainda na juventude, a participação na Reforma Sanitária e a defesa do SUS. Recordou sua experiência como vereador, presidente da Câmara Municipal, vice-prefeito e secretário municipal de Saúde e Cultura, funções que aproximaram sua atuação acadêmica das necessidades concretas da população.

Ao falar sobre a pandemia de Covid-19, ressaltou o trabalho de pesquisa, divulgação científica e esclarecimento público desenvolvido durante a crise sanitária, que resultou, entre outras iniciativas, na publicação de livros sobre a experiência da pandemia. Ao final, agradeceu ao Departamento de Saúde Pública e à Congregação da FMB/Unesp pela concessão do título, que considerou o reconhecimento de uma trajetória construída entre a universidade, a gestão pública e o compromisso com a sociedade.