Procrastinação: a astúcia do corrupto
A mídia revela diariamente as gretas por onde escoam as evidências.
Renato Dias Baptista*
Seria ingenuidade pensar que a corrupção foi recém-descoberta ou que ela é uma característica da esquerda, da direita ou da volubilidade dos políticos que seguem o ‘galo dos ventos’. Não há nenhuma novidade, mas um dique que felizmente foi rompido.
A mídia revela diariamente as gretas por onde escoam as evidencias. Simultaneamente os adeptos da refutação fervilham, a discussão entre subornadores e subornáveis não cessam e a pretensa inocência é digladiada.
Nesse percurso, as evidências de corrupção e a efetiva punição demonstra espelhar o premiado filme “O Sétimo Selo” de Ingmar Bergman.
Para recordar, no extrato que impulsiona o roteiro, um cavaleiro se depara com a personificação da morte que vem buscá-lo. Com base na crença pessoal de que precisava mais tempo para encontrar as respostas sobre os mistérios que o desalentava, o cavaleiro propõe uma negociação à morte: uma disputa de xadrez. Nesse interim ele desejava ganhar tempo para indagar sobre o sentido da vida.
A despeito das interpretações que a obra possa suscitar ou pela licença aqui diligenciada, Bergman também deixa aberto o caminho sobre o uso da retórica como forma de controlar o inevitável.
Ao refletirmos sobre a obra cinematográfica, a alegoria com o cenário de corrupção no país pode ser imediata. Claro, não existe um cavaleiro hipoteticamente justo nessa representação, mas uma grande parcela de políticos que retratariam o lado sombrio do cavaleiro.
Enquanto o ‘cavaleiro’ honesto deseja tempo para entender a complexidade da vida, o corrupto utiliza o tempo como forma de procrastinação.
A ânsia do transgressor sempre é a de contemporizar a ação para protelar a pena. Assim, se o erro está sujeito às interpretações, a vitória sobre a condenação dependerá da retórica. Nessa perspectiva, a justiça é contestada para evitar o inferno da culpa. Em épocas sem memória ‘ganhar tempo’ se tornou o melhor artificio.
No filme ‘O Sétimo Selo’, o cavaleiro volta de uma cruzada e encontra seu país tomado pela peste. No Brasil contemporâneo, o corrupto é o lado tétrico do cavaleiro, o próprio causador da devastação. Como substituição ao jogo de xadrez, a proposta é enredar-se numa retórica compulsiva.
Sem contestar o direito de defesa e necessariamente ignorando os tolos que rogam pelos militares, o que mais ofusca a razão é o tempo do gárrulo.
Renato Dias Baptista, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, é professor doutor da Universidade Estadual Paulista, UNESP, Câmpus de Tupã. E-mail: rdbaptista@tupa.unesp.br

