Como o Homem domou o Tempo

Dentre todas as fases do calendário gregoriano que regula a nossa vida foi instituído o chamado ano bissexto

Marcos Alegre*

A importância do Tempo obrigou o Homem a estabelecer calendários para a medida desse tempo e organizar a vida das pessoas na Terra. Dentre todas as fases do calendário gregoriano que regula a nossa vida foi instituído o chamado ano bissexto, que é o ano em que o mês de fevereiro tem mais um dia e ocorre de quatro em quatro anos para compensar as horas que sobram a cada ano. E aqui, a título de curiosidade, eu pergunto aos caros leitores: Em quais anos do calendário ocorrem o ano bissexto? É simples: será bissexto o ano cujos dois últimos algarismos divididos por quatro não deixam resto.

Observa-se que, de imediato os anos ímpares não podem ser bissextos. Alguns exemplos: 2014 poderia ser? Não, pois 14 não é divisível por quatro. E 2016?  Sim, assim como 2020, 2024 e todos os seguintes de quatro em quatro anos. Vou, agora, informar o nosso leitor de alguns fatos relacionados ao título deste trabalho que se trata de um livro da coleção “O homem e o universo” de Hernani Donato – Edições Melhoramentos, em 1958.

O autor começa assim: “Não há um só momento em que o Homem esteja livre das preocupações ou das limitações que o Tempo impõe. E isto, não só com referência a um breve giro do relógio ou com a sugestão de folhinha sobre a mesa. Tudo e sempre, fala do Tempo que se escoa sem avanço e sem atraso, fazendo sentir-se no amadurecimento dos frutos, na ida e vinda do frio e do calor, da chuva e da estiagem, na infância que se torna juventude e na velhice que tateia a morte. O Homem não pode fugir ao sacrifício que o Tempo lhe exige. Mas esse mesmo Homem passou toda a sua história criando sistemas, construindo aparelhos, apelando para os astros no esforço de conhecer, medir e, se possível, prender o esguio, o inexorável aliado mas também inimigo e verdadeiro carrasco  – o Tempo!”

Há muitos milênios as impressões do ambiente deram ao Homem a noção de obediência a uma ordem superior alheia à força de seus braços e de sua inteligência e viram que não poderiam domar o Tempo com seus minguados recursos por isso o Homem voltou seus olhos para o céu e seus astros que já eram muito conhecidos. Na Bíblia Sagrada, em Gênesis, a descrição prodigiosa do Hexaemeron – obra dos seis dias da criação do mundo – ensinava aos crentes que no quarto dia, ao criar três categorias de astros (Sol, estrelas e a Lua) com a missão de iluminar a Terra, distinguir os dias das noites e marcar a porção de tempo. E assim os povos primitivos contam tudo isto nos seus livros e seguem, religiosamente, o que ali está exposto.

Dos astros vinham-lhe a luz e a treva o frio e o calor, a esperança e o medo. A partir do estudo dos astros e seus movimentos viriam também os dias, as semanas os meses e os anos. O dia é a base de todas as medidas de tempo e foi dividido em duas partes: O dia quando tudo estava claro e a noite a escuridão. Sabe-se que os povos primitivos tinham predileção pelo número doze e usaram essa predileção para contar as horas do dia dividido em duas partes. Portanto 12 horas o dia claro e 12 horas a noite que os homens chamavam- na de tenebrosa e era odiada.

Mas o Homem, à medida que avançava em seu conhecimento, precisava fracionar a hora e decidiram dividir a hora em 60 partes iguais e diminutas dando origem ao minuto. Mais para a frente, nova divisão igual à primeira e, por ser a segunda deu origem aos segundos.

Mas o Homem não está satisfeito com o segundo porque descobriram que ele não tem duração uniforme e assim um congresso de astrônomos reunidos em Dublim (Irlanda) em 1955 determinou que o segundo deixaria de ser fração do dia para ser calculado como fração do ano.

Por fim, o Homem dominando as medidas do Tempo bastava saber que entre dois nascimentos do sol mediavam 24 espaços denominados de horas, 1 440 dos chamados minutos e 86 400 dos ditos segundos. Por alguns milhares de anos o Homem permaneceu satisfeito.

Eis aí meu caro leitor um ligeiro apanhado de como o Homem teria domado o Tempo. Trata-se de um tema fascinante e o livro que me serviu de base tem 186 páginas que vale a pena ser lido e verificar como nossos avós trabalharam na tentativa de domar o Tempo. Na verdade o Homem não conseguiu domar o Tempo. Conseguiu apenas fracionar o Tempo e viver de acordo com as suas possibilidades. Creio até que vale contar uma brincadeira que se fazia tempos atrás: “O tempo perguntou para o tempo quanto tempo o tempo tinha e o tempo respondeu para o tempo que o tempo não tinha tempo”.   (Algum riso, por favor!)

* Marcos Alegre, professor emérito da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Unesp de Presidente Prudente e ex-diretor dessa mesma instituição. Contato: maralegre@ig.com.br

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