“É sabido que algumas condições psiquiátricas são resultantes da inflamação de células nervosas. Como a minociclina, em baixas doses, tem efeito anti-inflamatório e não necessariamente antibiótico, a melhora nos sintomas provavelmente se dá por meio da redução dessa inflamação. É uma via diferente da usada pelo clonazepam, que atua inibindo receptores específicos no cérebro”, explica Gargaglioni.
Ainda que no tratamento com antibiótico algumas respostas não sejam como as do clonazepam, usado como controle no estudo com humanos, a minociclina pode ser uma alternativa para pacientes que não respondem ao medicamento psiquiátrico, que são cerca de 50% do total.
“O clonazepam potencializa a ação do GABA [ácido gama-aminobutírico, um neurotransmissor] ao se ligar ao receptor de mesmo nome. Esses receptores estão presentes em todo o encéfalo. Portanto, o uso do clonazepam reduz também as frequências cardíaca e respiratória, diminui a capacidade de decisão e provoca outros efeitos colaterais, como a dependência, o que o torna um medicamento de uso controlado”, explica Gargaglioni.
Uma vez que a minociclina já é utilizada para outro fim e, portanto, segura para humanos, os estudos clínicos poderiam avançar diretamente para a fase 2, com o aumento do número de pacientes, testes de diferentes doses e avaliação de possíveis efeitos colaterais, entre outros levantamentos feitos nesse tipo de estudo.
A pesquisa abre caminho, ainda, para a busca por outras drogas com ação anti-inflamatória nas micróglias que poderiam ter efeito semelhante ou ainda mais satisfatório do que a minociclina no tratamento do transtorno do pânico.
Experimentos
Os pesquisadores observaram, no sangue dos pacientes analisados, que aqueles que tomaram minociclina tiveram os níveis de citocinas pró-inflamatórias reduzidos, como os da interleucina (IL) 2sRα e IL-6, além de um aumento da IL-10, que favorece a resposta à inflamação. Além disso, houve redução da citocina TNFα, ligada a diversos processos inflamatórios.
Foram analisados 49 pacientes diagnosticados com transtorno do pânico. Eles inalaram ar enriquecido com 35% de dióxido de carbono no início do estudo e depois de sete dias tomando clonazepam ou minociclina. Nas duas ocasiões, os sintomas de ansiedade foram medidos por psiquiatras treinados, utilizando métodos adotados nesse tipo de estudo.
“Tanto essa concentração de CO2 quanto a usada nos camundongos, de 20%, não são encontradas na natureza. No entanto, o excesso de dióxido de carbono provoca a mesma sensação de sufocamento que o ataque de pânico. Uma vez que é uma sensação muito desagradável, o grupo-controle foi o que tomou clonazepam. Não seria ético ter um grupo que tomou placebo nesse caso”, diz Gargaglioni.
Embora a literatura científica já tenha relatado diferenças nos níveis de citocinas em camundongos sob diferentes tratamentos, no estudo atual não foram detectadas essas diferenças, provavelmente por causa de limitações metodológicas.
No entanto, após o tratamento com minociclina, foram observadas respostas comportamentais significativas nos animais, com redução dos saltos, uma das respostas após serem induzidos ao ataque de pânico com o enriquecimento do ar com 20% de CO2.
Análises do locus coeruleus, região do cérebro sensível ao CO2, mostraram uma diminuição da densidade de micróglias nos camundongos seis horas após exposição ao gás, o que reforça o papel dessa parte do cérebro nos ataques de pânico.
“Testamos diferentes intervalos em que as alterações no cérebro poderiam ser observadas e concluímos que seis horas após 15 minutos de exposição ao CO2 é o ideal, o que é um resultado importante para futuros estudos”, diz Oliveira.
A adoção da minociclina para este fim ainda depende de novos estudos. O atual, porém, abre horizonte para uma nova forma de tratar essa e outras condições psiquiátricas que possam estar relacionadas ao aumento da inflamação em células nervosas.

